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10 de Setembro: Nem tudo Acabou

Nem toda dor consegue pedir ajuda. Neste 10 de setembro, falamos sobre prevenção ao suicídio, escuta, acolhimento e onde buscar ajuda no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países.

Nem toda dor consegue pedir ajuda. Há sofrimentos que não chegam em forma de pedido.

Não vêm acompanhados de uma frase clara, de um anúncio ou de um pedido explícito de socorro.

Às vezes aparecem no silêncio. No afastamento. Na mudança de comportamento.

Na pessoa que continua trabalhando, estudando, cuidando da família, publicando, conversando e até sorrindo — enquanto alguma coisa parece desabar por dentro.

Por isso, neste 10 de setembro, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas:

“Por que alguém pensa em desistir?” Talvez precisemos perguntar também: “Nós estamos realmente escutando?”

Quando a vida perde a linguagem

Existem momentos em que o sofrimento parece maior do que as palavras disponíveis para explicá-lo.

Dizer “eu não estou bem” pode ser difícil.

Pedir ajuda pode exigir uma energia que a pessoa já não consegue encontrar. E é justamente aí que a presença de alguém pode importar.

Não é preciso ter uma resposta perfeita. Não é preciso resolver a vida do outro. Não é preciso transformar cada conversa em conselho.

Às vezes, o primeiro gesto é muito mais simples: “Como você está, de verdade?” E permanecer ali tempo suficiente para ouvir a resposta.

Nem todo sofrimento é visível

Existe uma ideia perigosa de que conseguiremos reconhecer facilmente alguém que chegou ao limite.

Nem sempre. O sofrimento humano não tem uma aparência única.

Por isso, prevenção também passa por construir relações nas quais seja possível falar sobre medo, desesperança, solidão, esgotamento e vontade de desistir sem que a pessoa seja imediatamente julgada, diminuída ou silenciada.

Falar sobre suicídio com responsabilidade não significa transformar sofrimento em espetáculo.

Significa romper o silêncio. Significa levar a dor a sério.

Significa reconhecer que alguém pode precisar de ajuda antes mesmo de conseguir formular claramente esse pedido.

E se alguém disser que não quer mais viver?

Escute. Não transforme a conversa em sermão.

Não responda dizendo que a pessoa precisa ser forte. Não compare a dor dela com a de outras pessoas.

Não tente provar que ela “tem tudo para ser feliz”. Leve a fala a sério.

Permaneça próximo, quando for possível e seguro, e ajude essa pessoa a procurar apoio profissional ou um serviço de crise.

Quando existe risco imediato, a situação precisa ser tratada como emergência.

Talvez você não saiba quem precisa deste vídeo

Por isso, quero fazer um pedido muito simples: compartilhe. Não porque um compartilhamento resolva sozinho um sofrimento complexo.

Mas porque uma mensagem circula. Uma informação circula. Um número de ajuda circula.

Uma pergunta circula. Uma possibilidade circula.

E talvez este vídeo chegue a alguém que você nem imagina estar procurando uma razão, uma pessoa ou simplesmente um lugar seguro para começar a falar. Compartilhar também é participar desta campanha.

10 de setembro: nem tudo acabou

Talvez hoje alguma coisa pareça ter acabado.

Um relacionamento. Um projeto. Uma certeza.

Uma esperança.

Uma forma de imaginar o futuro. Mas o fim de alguma coisa não precisa significar o fim de tudo.

Se você chegou até este texto porque está sofrendo, não precisa encontrar sozinho todas as respostas agora.

Comece por uma pessoa. Uma conversa. Um profissional. Um serviço de apoio.

Uma frase já pode ser um começo: “Eu preciso conversar com alguém.”

Onde procurar ajuda

🇧🇷 Se você está no Brasil

O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso.

Telefone: 188. O atendimento telefônico funciona 24 horas por dia, todos os dias, gratuitamente em todo o território brasileiro.

O CVV também oferece outras formas de contato, incluindo chat.

Em uma situação de urgência ou risco imediato, procure um pronto atendimento ou acione o SAMU pelo 192.

🇺🇸 Se você está nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos existe a 988 Suicide & Crisis Lifeline.

Ligue ou envie uma mensagem de texto para: 988

O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, gratuitamente e de forma confidencial.

Também existe atendimento por chat. E uma informação especialmente importante para nossa comunidade latino-americana: há atendimento em espanhol. Pelo telefone, é possível ligar para 988 e pressionar 2. Por mensagem de texto, é possível enviar AYUDA para 988.

Em situação de perigo imediato nos Estados Unidos, procure um serviço de emergência ou ligue 911.

🌎 Se você está em outro país

Não existe um único número de prevenção ao suicídio que funcione mundialmente.

Por isso, para quem está em outros países, uma das melhores referências é o Find A Helpline, um diretório internacional que permite localizar serviços de apoio emocional e crise de acordo com o país onde a pessoa está.

A plataforma reúne linhas verificadas em mais de 175 países e permite procurar atendimento por telefone, mensagem, chat e, em alguns lugares, WhatsApp.

A International Association for Suicide Prevention (IASP) também direciona pessoas em crise para esse serviço internacional.

Procure: Find A Helpline e selecione o país onde você está. Se houver perigo imediato, procure o serviço de emergência do seu país.

Quando a Vida Perde a Linguagem

Este vídeo faz parte de uma conversa que quero continuar.

Na série Quando a Vida Perde a Linguagem, no canal Daseinsanálise Oficial, falamos sobre sofrimento humano, existência, saúde mental e sobre aquilo que muitas vezes permanece escondido justamente porque ainda não encontrou palavras.

Talvez você nunca saiba quem recebeu essa mensagem porque você decidiu compartilhá-la.

E não precisa saber. Às vezes, basta ajudá-la a chegar.

10 de setembro. Nem tudo acabou. Escute. Acolha. Compartilhe informação.

Você importa.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

O Brasil que Fomos, o Brasil que Somos e o Brasil que Podemos Ser

Uma leitura histórico-crítica do Brasil contemporâneo: da redemocratização à polarização, entre memória, democracia e futuro.

Este ensaio propõe uma leitura histórico-crítica do Brasil contemporâneo, da redemocratização à polarização política atual.

Partindo do panorama histórico, institucional, econômico e social entre 1985 e 2026, procuro compreender não apenas os governos e suas circunstâncias, mas também algumas estruturas que atravessam nossa experiência democrática: a bipolarização partidária, a memória histórica, o personalismo político, a relação entre interesse individual e interesse coletivo e a possibilidade de uma perspectiva moderada.

Não se trata de indicar candidatos ou partidos. Trata-se de pensar criticamente o país que fomos, compreender o país que somos e perguntar que Brasil ainda podemos construir.


O voto é particular, mas o “nós” precisa prevalecer para que ele seja eficaz.



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Quando romper parece a única saída: Obsession, Geração Z e o colapso do futuro

Obsession não fala apenas de obsessão. O filme revela algo mais inquietante: o que acontece quando alguém deixa de conseguir imaginar um depois. Entre a rejeição, a cultura da ruptura e a desesperança, surge uma pergunta urgente: por que, para tantos jovens, romper parece ser a única saída?”

O que acontece quando uma geração cercada de possibilidades começa a experimentar a vida como se algumas situações não tivessem saída?

Obsession pode parecer apenas um filme de terror sobre amor, obsessão e controle. Mas o final abre uma questão muito maior: o que acontece quando uma pessoa deixa de conseguir imaginar outras possibilidades para a própria vida?

Neste vídeo, eu falo sobre Geração Z, desesperança, cultura digital, frustração, ruptura e o colapso do futuro a partir de uma leitura psicológica e fenomenológica.

Por Christianne Sturzeneker

*Este artigo aborda desesperança, ideação suicida e suicídio a partir de uma perspectiva psicológica e fenomenológica.


Há uma cena em Obsession que permanece depois que o filme termina. Não porque seja a mais violenta. Nem porque seja a mais assustadora. Mas porque, de repente, o horror sobrenatural deixa de ser o verdadeiro problema.

O jovem Bear desejou que Nikki o amasse mais do que qualquer outra pessoa no mundo. O desejo se realizou. E justamente por ter se realizado, tornou-se monstruoso.

Há muitas maneiras de interpretar Obsession. Pode-se falar sobre consentimento, posse, dependência emocional, controle e sobre a transformação do amor em propriedade. Mas outra pergunta me ocorreu enquanto assistia ao filme: Por que, quando todas as alternativas parecem desaparecer, a ruptura passa a se apresentar como solução?

E essa pergunta ultrapassa o filme. Ela nos coloca diante de uma geração que cresceu em um mundo aparentemente abarrotado de possibilidades e que, paradoxalmente, também convive com índices preocupantes de desesperança, sofrimento psíquico e comportamento suicida. Talvez estejamos diante de uma questão ainda mais profunda: “O que acontece quando uma pessoa deixa de conseguir imaginar o depois?”

O horror começa quando não existe um “depois”

No desfecho de Obsession, Bear percebe que criou uma situação da qual aparentemente não consegue escapar. Nikki não simplesmente o ama. Ela foi aprisionada dentro daquele amor. O desejo retirou dela precisamente aquilo sem o qual nenhuma relação humana pode verdadeiramente existir: a liberdade de escolher, recusar, aproximar-se, afastar-se e até deixar de amar.

Bear desejava eliminar a insegurança. Eliminou a liberdade. Desejava eliminar a possibilidade da rejeição. Eliminou a possibilidade da relação. E, finalmente, confrontado com as consequências de seu próprio desejo e com a aparente impossibilidade de desfazê-lo, ele produz a ruptura definitiva. O ponto mais perturbador não está apenas na morte.

Está na estrutura que antecede essa decisão. Tudo parece ter se fechado. Não existe retorno. Não existe alternativa intermediária. Não existe um “talvez”. Existe apenas a sensação de que aquilo precisa acabar. É justamente esse detalhe que transforma o final em algo mais do que uma solução narrativa de terror.

Um morre. A outra fica. Um interrompe. A outra terá que elaborar.

São duas respostas radicalmente diferentes à existência depois da catástrofe. E foi nesse ponto que Obsession deixou de ser, para mim, apenas um filme de horror.

Talvez o oposto da esperança não seja a tristeza

Quando falamos em desesperança, frequentemente imaginamos alguém profundamente triste. Mas a desesperança pode ser compreendida de outra maneira. Ela é também uma crise de possibilidade.

A pessoa olha para a própria vida e já não consegue imaginar:

“Isso pode mudar.”

“Posso atravessar isso.”

“Existe alguma coisa depois daqui.”

“Ainda não sei o que fazer, mas talvez exista algo que eu ainda não esteja vendo.”

O futuro continua existindo cronologicamente. Amanhã continuará marcado no calendário. Mas, subjetivamente, o amanhã desapareceu. Isso produz uma diferença fundamental entre sofrimento e desesperança. Uma pessoa pode estar sofrendo intensamente e ainda acreditar que alguma transformação seja possível.

Na desesperança extrema, não é somente o presente que se torna insuportável. É o futuro que deixa de oferecer alternativas. E quando não conseguimos imaginar transformação, podemos começar a imaginar interrupção.

A geração das infinitas opções

É aqui que a Geração Z entra nesta discussão. Seria irresponsável afirmar que existe alguma característica psicológica universal chamada “mentalidade da Geração Z”. Milhões de pessoas não podem ser reduzidas a uma única estrutura psíquica. Mas existe um paradoxo contemporâneo que merece atenção.

Nunca tivemos tantas opções disponíveis. Centenas de pessoas podem ser vistas em minutos em aplicativos de relacionamento. Milhares de carreiras podem ser pesquisadas. Uma identidade pode ser apresentada, modificada e reapresentada publicamente.

Uma amizade pode ser interrompida com um bloqueio. Um conteúdo desagradável desaparece com o movimento de um dedo. Uma conversa pode ser abandonada. Uma pessoa pode ser silenciada. Uma conta pode ser apagada. Uma experiência pode ser pulada.

Vivemos dentro de uma arquitetura tecnológica construída em torno de uma operação recorrente: continuar ou sair.

Isso não significa que aplicativos produzam suicídio. Muito menos que bloquear alguém, terminar um relacionamento ou deixar um emprego sejam comportamentos patológicos. Muitas rupturas são necessárias, saudáveis e até vitais. O problema que merece investigação é outro.

O que acontece quando a lógica da interrupção começa a ocupar o lugar da transformação?

Permanecer deixou de ser uma possibilidade?

Há experiências humanas que não possuem botão para pular. O luto não pode ser deslizado para a esquerda. A rejeição não desaparece quando fechamos uma janela. Uma infância não pode ser deletada. O corpo não possui a função “desfazer”. Algumas perdas não podem ser bloqueadas. E nenhuma existência oferece garantia de reciprocidade.

Viver exige uma competência cada vez menos celebrada: permanecer durante algum tempo diante daquilo que ainda não tem solução.Isso não significa permanecer em um relacionamento abusivo. Não significa suportar violência. Não significa defender resignação, submissão ou passividade.

Permanecer, aqui, significa outra coisa. Significa tolerar o intervalo existente entre: “não posso continuar assim” e “ainda não sei como será diferente”.

Esse intervalo é psicologicamente difícil. Nele não existe solução instantânea. Existe elaboração. Existe espera. Existe ambivalência. Existe reconstrução. Existe ajuda.

Existe a possibilidade de descobrir uma saída que ainda não conseguíamos enxergar. Talvez uma das perguntas mais importantes sobre nosso tempo seja justamente esta: estamos ensinando os jovens a atravessar esse intervalo?

Quando “preciso que isso acabe” se aproxima de “preciso acabar”

Existe uma distinção clínica importante. Querer interromper uma dor não é necessariamente querer interromper a própria existência. Uma pessoa pode desejar desesperadamente que uma situação termine.

Que uma angústia pare.

Que uma dívida desapareça.

Que uma humilhação cesse.

Que uma relação deixe de doer.

Que determinado estado interno se encerre.

Em condições de intenso sofrimento psíquico, entretanto, essas duas coisas podem perigosamente se aproximar. “Eu preciso que isso termine” pode transformar-se em: “não existe maneira de isso terminar enquanto eu estiver aqui.” É nessa passagem que a desesperança se torna particularmente importante para compreendermos o risco suicida.

Não porque exista uma causa única para o suicídio. Não existe. Comportamentos suicidas são fenômenos complexos, relacionados a múltiplos fatores individuais, psicológicos, relacionais, sociais e ambientais. Mas a incapacidade de representar um futuro diferente possui enorme importância.

O problema deixa de ser apenas: “Minha vida está insuportável.” E passa a ser: “Minha vida será sempre assim.”

Uma frase descreve sofrimento.

A outra aprisiona o futuro.

A fantasia da ruptura salvadora

Talvez possamos chamar esse fenômeno de fantasia da ruptura salvadora. Não estou utilizando a expressão como categoria diagnóstica, mas como uma chave para pensar nosso tempo. É a crença de que eliminar o vínculo eliminará necessariamente o conflito.

Eliminar o espaço eliminará a angústia. Eliminar a experiência eliminará o sofrimento. É evidente que existem situações nas quais romper é precisamente o necessário. Sair de uma relação violenta pode salvar uma vida. Romper determinados vínculos pode ser um ato de saúde.

Abandonar um ambiente destrutivo pode representar reconstrução. O problema não está na ruptura. Está na desaparição das demais possibilidades.

Quando existem somente duas alternativas — continuar exatamente assim ou destruir tudo — já estamos diante de um empobrecimento do possível. E talvez Obsession seja exatamente uma história sobre isso. Bear nunca consegue aceitar verdadeiramente a terceira possibilidade. Nikki pode não amá-lo. Ele poderia sobreviver a isso. Poderia sofrer. Poderia perder. Poderia seguir.

Poderia tornar-se outro depois daquela rejeição. Mas ele tenta eliminar a contingência. Quer uma solução absoluta. E soluções absolutas são perigosas justamente porque a existência humana nunca é absoluta.

O algoritmo também nos ensina alguma coisa sobre frustração

Há ainda outro elemento que não pode ser ignorado. A Geração Z é a primeira geração a ter atravessado infância e adolescência dentro de ecossistemas digitais de grande escala. Isso não autoriza o diagnóstico fácil de que “as redes sociais estão destruindo os jovens”. A evidência é mais complexa. Talvez devamos perguntar não apenas quanto tempo um jovem passa diante de uma tela.

Talvez devamos perguntar também: que estrutura de experiência essa tela está ensinando?O algoritmo aprende rapidamente aquilo que queremos. Se algo não nos interessa, desaparece.

Se uma música não agrada em poucos segundos, outra começa. Se uma imagem incomoda, rolamos. Se alguém produz desconforto, silenciamos. A tecnologia reduz extraordinariamente o tempo entre desejo e resposta. A existência não. Talvez exista aí um conflito silencioso. A cultura digital oferece progressivamente menos treinamento para a espera exatamente no momento em que a vida continua exigindo espera.

Mil portas na tela

Talvez seja esse um dos grandes paradoxos contemporâneos. Nunca estivemos cercados por tantas opções. Mas possibilidade objetiva não é a mesma coisa que possibilidade subjetivamente experimentada. É possível haver dez caminhos diante de uma pessoa e, ainda assim, ela sentir que não existe nenhum. É possível existir saída e ela não aparecer como saída. É possível existir futuro e ele não ser sentido como futuro.

Mil portas na tela.

Nenhuma porta dentro de nós.

Essa talvez seja uma das imagens mais fortes para compreender a desesperança contemporânea. Não se trata simplesmente de ausência de opções. Trata-se de ausência de acesso subjetivo às opções.

Heidegger e o desaparecimento do possível

A filosofia pode nos ajudar a enxergar essa questão de outra maneira. Para Martin Heidegger, a existência humana não é simplesmente aquilo que já somos. O ser humano existe projetando-se em possibilidades. Somos também aquilo que ainda podemos ser. Isso significa que o futuro não é apenas uma data que chegará.

Ele participa da maneira como habitamos o presente. Enquanto consigo dizer: “ainda posso”, há abertura.

Quando todas as possibilidades parecem fechar-se, o mundo também se estreita. Por isso podemos pensar a desesperança fenomenologicamente como uma espécie de colapso do poder-ser.

Não significa que possibilidades tenham objetivamente deixado de existir. Significa que, para aquela pessoa, elas deixaram de aparecer como possibilidades. Há uma diferença imensa. De fora, alguém pode enxergar dez caminhos. De dentro da experiência desesperançada, nenhum deles aparece. Talvez por isso frases como “você tem a vida inteira pela frente” frequentemente tenham tão pouco efeito sobre alguém profundamente desesperançado. Quem diz a frase está olhando para um futuro objetivo.

Quem sofre já não consegue habitá-lo.

Nikki sobrevive

E então voltamos ao filme. Há algo brutalmente importante no fato de Nikki permanecer viva. Não há final feliz. Ela não recupera simplesmente a vida anterior. Há trauma. Há consequências. Há uma história que não poderá ser apagada. Mas existe um depois.

E talvez essa seja precisamente a dimensão mais perturbadora — e também mais humana — do final. Sobreviver não significa retornar ao ponto em que estávamos antes.

Às vezes significa continuar carregando uma experiência que modificou profundamente quem somos. A cultura da solução pode vender a ideia de que superar alguma coisa significa apagá-la. A experiência humana nos ensina outra coisa. Elaborar é diferente de apagar.

Reconstruir é diferente de voltar. Continuar é diferente de permanecer igual.

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada

Quando alguém manifesta desejo de morrer, naturalmente perguntamos: “Por que você quer morrer?” É uma pergunta compreensível. Mas talvez exista outra que precise acompanhá-la: “O que aconteceu para que todas as outras possibilidades deixassem de aparecer?”

Porque talvez, em determinados momentos, a pessoa não esteja conseguindo escolher entre viver e morrer da maneira como imaginamos. Talvez esteja escolhendo entre: “continuar para sempre desta maneira” e “fazer isto parar”.

Se for assim, uma das tarefas fundamentais de quem está ao seu lado — família, amigos, sociedade e profissionais de saúde mental — é ajudar a reconstruir aquilo que a desesperança destruiu: a existência de uma terceira possibilidade.

Não precisamos saber imediatamente qual será. Primeiro, precisamos recuperar o talvez. Talvez isso mude. Talvez exista ajuda. Talvez haja uma possibilidade ainda invisível. Talvez eu não precise decidir toda a minha vida a partir daquilo que estou sentindo hoje.

Talvez exista um depois.

O verdadeiro horror

Obsession começa com um jovem incapaz de suportar que o futuro permaneça aberto. Ele quer certeza. Quer controle. Quer uma resposta definitiva. Obtém exatamente aquilo que desejou.E o resultado é horror.

Talvez haja alguma coisa profundamente contemporânea nessa história. Uma geração cresceu com acesso a mais alternativas do que qualquer geração anterior. Mas possibilidades objetivamente disponíveis não significam necessariamente possibilidades subjetivamente experimentadas. Podemos ter mil portas na tela e nenhuma porta dentro de nós.

É por isso que, diante da desesperança entre os jovens, talvez a pergunta mais urgente não seja apenas por que tantos estão sofrendo. Precisamos perguntar também: quem está ensinando essa geração que uma vida pode mudar sem precisar ser destruída primeiro?

Porque entre permanecer exatamente onde estamos e romper definitivamente com tudo existe um território enorme. É nesse território que vivem a elaboração, o encontro, a ajuda, a mudança, o tempo e aquilo que ainda não conhecemos.

É nele que o futuro volta a existir.

E, algumas vezes, recuperar o futuro começa com uma única possibilidade: não acabar hoje aquilo que ainda pode se transformar amanhã.





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O Substituto: Por que Insistimos em Oferecer outra Coisa no Lugar?

Antes de oferecer uma solução, talvez devêssemos fazer outra pergunta: do que realmente o outro precisa? A partir de uma pequena fábula, este texto convida a refletir sobre o lugar dos substitutos e o verdadeiro sentido do cuidado.

Esta semana eu estava pensando em uma cena que provavelmente todos nós já vimos alguma vez.

Uma criança começa a chorar.

O adulto, quase imediatamente, procura alguma coisa para resolver aquilo.

Um brinquedo.

Um doce.

Um desenho na televisão.

Um celular.

Uma promessa.

Uma distração.

Quase nunca a primeira pergunta é: "O que aconteceu?"

E menos frequente ainda é outra pergunta: "Do que você realmente precisa?"

Essa reação parece tão natural que raramente percebemos o que está acontecendo.

Diante da dor, da frustração ou do vazio, nossa tendência não é permanecer. Nossa tendência é substituir.

Foi justamente pensando nisso que escrevi a pequena fábula "O Substituto".

Nela, um filhote de esquilo recebe tudo aquilo que qualquer pessoa consideraria necessário. Alguém lhe oferece alimento. Outro constrói um abrigo. Uma terceira personagem o aquece com uma manta.

Pelo contrário.

Cada personagem faz exatamente aquilo que sabe fazer.

A questão é outra.

Apesar de todos os cuidados, o filhote continua olhando para o mesmo caminho.

É como se dissesse silenciosamente: "Não era isso que eu esperava."

Essa cena me fez pensar em quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa na vida.

Quando um amigo sofre, oferecemos conselhos.

Quando um filho se entristece, oferecemos presentes.

Quando um companheiro se afasta, oferecemos soluções.

Quando nós mesmos nos sentimos vazios, oferecemos trabalho, comida, compras ou distrações.

Talvez porque seja mais fácil oferecer alguma coisa do que permanecer diante de uma dor que não sabemos resolver.

Na clínica, essa diferença aparece com frequência.

Nem sempre o sofrimento nasce daquilo que faltou materialmente.

Às vezes, nasce da experiência de não ter encontrado alguém emocionalmente disponível naquele momento.

Isso não significa procurar culpados.

Pais fazem escolhas difíceis.

Mães vivem exaustas.

Famílias enfrentam limitações reais.

A vida nem sempre permite oferecer tudo aquilo que gostaríamos.

Mas existe uma pergunta que vale a pena guardar: O que estamos tentando substituir?

Porque nem toda compensação resolve a ausência que lhe deu origem.

Algumas pessoas comem quando sentem solidão.

Outras trabalham sem parar.

Algumas compram.

Outras controlam.

Há quem procure reconhecimento o tempo inteiro.

E há quem passe a vida tentando provar que merece ser escolhido.

Os comportamentos mudam.

A lógica permanece.

Substituímos aquilo que não conseguimos tocar.

Talvez seja justamente por isso que Epicuro, na fábula, não leva nada.

Ele percebe que o problema do pequeno esquilo não é a falta de uma noz.

Nem de um telhado.

Nem de uma manta.

O que faltava não cabia nas mãos.

Cabia na presença.

E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis do nosso tempo.

Vivemos cercados de recursos para substituir quase tudo.

Mas continuamos aprendendo, muito lentamente, que existem experiências humanas que simplesmente não aceitam substitutos.

Uma pergunta para levar consigo

Na próxima vez que alguém próximo a você estiver sofrendo, antes de procurar imediatamente uma solução, experimente fazer uma pausa.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

"O que posso oferecer?"

Mas:

"Será que, antes de qualquer coisa, essa pessoa só precisa que alguém permaneça ao lado dela?"


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DA FOGUEIRA AO ALGORITMO: APRENDEMOS A FALAR, ESQUECEMOS A ESCUTAR?

A Evolução da Consciência na Fenomenologia apresenta uma reflexão filosófica sobre consciência, existência e inteligência artificial. A partir da fenomenologia de Husserl e Heidegger, a obra investiga os desafios contemporâneos do humano diante das transformações tecnológicas, discutindo subjetividade, experiência, sentido e os limites da consciência.

Antropologia do Amor


Há cerca de quarenta mil anos, nossos ancestrais reuniam-se ao redor de uma fogueira.

Ali não existiam livros.
Não existiam escolas.
Não existiam psicólogos.
Não existiam filósofos.

Não existia sequer uma linguagem plenamente desenvolvida. Ainda assim, algo fundamental já estava presente: a necessidade de encontrar o outro.

Muito do que hoje chamamos humanidade nasceu naquele círculo iluminado pelo fogo.

A transmissão de conhecimentos.
O cuidado com os mais vulneráveis.
A partilha dos alimentos.
As primeiras narrativas.
Os primeiros símbolos.

Talvez até mesmo o amor.

O filme A Guerra do Fogo nos recorda que a história humana não começou com grandes teorias, mas com pequenos gestos. Antes da palavra elaborada existia a presença. Antes da argumentação existia o olhar. Antes da explicação existia o cuidado.

Talvez a primeira linguagem do amor tenha sido justamente essa. Não uma frase. Um gesto. Milhares de anos se passaram. nventamos a escrita. Construímos cidades. Criamos religiões. Fundamos universidades. Produzimos ciência.

Desenvolvemos tecnologias capazes de conectar instantaneamente pessoas situadas em lados opostos do planeta. E agora ingressamos em uma nova etapa da história. A era dos algoritmos. A era da inteligência artificial.

A era das máquinas capazes de responder perguntas, produzir textos, criar imagens e participar de diálogos cada vez mais sofisticados. Nunca tivemos tantas ferramentas de comunicação. E, paradoxalmente, nunca ouvimos tantas pessoas dizerem que se sentem sozinhas. A contradição merece atenção.

Como é possível comunicar tanto e encontrar tão pouco? Como é possível estar permanentemente conectado e, ainda assim, experimentar uma sensação crescente de isolamento?

Talvez porque falar e comunicar não sejam a mesma coisa. E talvez comunicar e encontrar também não sejam a mesma coisa.

Martin Buber, filósofo do diálogo, afirmava que existem duas formas fundamentais de relação. A primeira é a relação Eu-Isso. Nela, o outro aparece como objeto.

Como instrumento. Como função. Como utilidade.

A segunda é a relação Eu-Tu. Nela, o outro é reconhecido em sua singularidade. Não como coisa. Mas como presença.

Talvez uma das grandes questões de nosso tempo seja justamente esta:

Estamos perdendo a capacidade de viver relações Eu-Tu? Estamos transformando pessoas em perfis?

Encontros em consumo? Afeto em desempenho?

Presença em conexão?

O que faz essa cena tocar tanto não é a tecnologia, mas a solidão. Her não trata só de inteligência artificial; trata do desejo humano de ser entendido. Por isso o filme permanece atual: nos faz perguntar se buscamos pessoas de verdade ou só alguém que confirme o que já pensamos de nós mesmos.

Essa pergunta aparece de maneira brilhante no filme Her. Theodore, o protagonista, apaixona-se por um sistema operacional dotado de inteligência artificial. À primeira vista, a história parece discutir tecnologia. Mas talvez sua questão mais profunda seja outra.

O que buscamos quando buscamos o amor? Um corpo? Uma voz? Uma consciência? Um espelho?

Ou alguém que nos faça sentir compreendidos?

O sucesso de Her talvez revele algo inquietante. Não apenas a evolução tecnológica. Mas a intensidade da solidão contemporânea.

A fenomenologia, de Husserl a Heidegger, sempre nos lembrou que a experiência humana não se reduz à informação.

Existir não é apenas processar dados. É habitar um mundo. É atribuir sentido. É sofrer. Esperar. Temer. Amar. Por isso a questão da consciência permanece aberta.

E talvez continue aberta mesmo diante dos avanços mais impressionantes da inteligência artificial. Porque a pergunta fundamental não é apenas o que uma máquina consegue fazer.

A pergunta é: o que significa experimentar um mundo?

Quando observamos a trajetória humana — da fogueira ao algoritmo — percebemos que o desafio central talvez nunca tenha mudado. Continuamos procurando aquilo que nossos ancestrais procuravam.

Reconhecimento. Pertencimento. Compreensão. Presença.

Continuamos procurando alguém capaz de nos escutar. Talvez o problema de nosso tempo não seja a falta de palavras.

Nunca falamos tanto. Nunca escrevemos tanto. Nunca publicamos tanto. Talvez o problema seja outro.

Talvez estejamos lentamente desaprendendo aquilo que tornou possível o surgimento de todas as linguagens: a escuta.

E talvez seja por isso que tantas relações não terminem por falta de amor. Talvez elas terminem quando já não conseguem encontrar uma linguagem comum.

Quando já não conseguem construir um mundo compartilhado. Quando deixam de escutar. Da fogueira ao algoritmo, a pergunta permanece. Não apenas como desafio tecnológico.

Mas como desafio humano: Ainda sabemos nos encontrar?

📚 LEITURA RECOMENDADA

As questões levantadas por Her também atravessam minha obra “A Evolução da Consciência na Fenomenologia”.

Neste livro, procuro acompanhar a trajetória da consciência humana na fenomenologia e refletir sobre o que significa ser consciente em uma era em que as máquinas ocupam territórios antes considerados exclusivamente humanos.

Mais do que perguntar o que as máquinas são capazes de fazer, a investigação volta-se para uma questão ainda mais fundamental: o que entendemos por consciência quando falamos do humano?

Disponível na Amazon e no Clube de Autores.

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Quando o Controle Ainda Parece “Cuidado”: Os Sinais Precoces que Muitas Mulheres Ignoram Antes da Violência

Nem todo relacionamento abusivo começa com violência explícita.
Muitos começam com controle disfarçado de cuidado, ciúmes romantizados, manipulação emocional e pequenas invasões que parecem “amor”.

O problema é que os sinais precoces quase sempre são ignorados — até que a violência psicológica evolua para algo ainda mais grave.

Neste artigo, discutimos os principais indicadores de relacionamentos abusivos, o fenômeno do gaslighting, casos reais do Brasil e dos Estados Unidos e os caminhos de proteção e denúncia para mulheres em situação de violência.

Identificar cedo pode salvar vidas.
Violência psicológica também é violência.

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A sutileza do Gaslighting

Há relacionamentos abusivos que não começam com gritos.
Começam com mensagens excessivas. Com ciúmes disfarçados de amor. Com controle apresentado como proteção. Com frases aparentemente pequenas, mas que lentamente vão destruindo a autonomia emocional da mulher.

O problema é que muitos desses sinais são romantizados — principalmente nas fases iniciais do relacionamento. E quando a violência finalmente se torna explícita, muitas mulheres já estão emocionalmente isoladas, culpabilizadas e psicologicamente fragilizadas.

O feminicídio raramente surge do nada.
Na maioria das vezes, ele é precedido por uma escalada silenciosa de violência psicológica.

Casos amplamente divulgados pela mídia no Brasil e nos Estados Unidos mostram exatamente isso: mulheres que ignoraram — ou não conseguiram identificar a tempo — sinais precoces de controle, perseguição, manipulação e gaslighting.

O Abuso Quase Nunca Começa como Abuso

No início, o comportamento controlador pode parecer atenção.

Ele quer saber onde você está “porque se preocupa”.
Ele critica suas roupas “para te proteger”.
Ele se irrita com suas amizades “porque te ama demais”.

Mas existe uma diferença profunda entre amor e posse.

O amor preserva a individualidade.
O controle tenta eliminá-la.

Uma das formas mais perigosas desse processo é o chamado gaslighting — uma violência psicológica na qual a vítima começa a duvidar da própria percepção da realidade.

Frases comuns incluem:

  • “Você está exagerando.”

  • “Você é louca.”

  • “Isso nunca aconteceu.”

  • “Você entendeu errado.”

  • “A culpa é sua.”

  • “Ninguém vai te amar como eu.”

Aos poucos, a mulher deixa de confiar em si mesma.

Casos reais: quando os sinais foram ignorados

Brasil: o caso de Eloá Pimentel

O caso de Eloá Pimentel chocou o Brasil.

A adolescente foi mantida em cárcere privado e assassinada pelo ex-namorado, que não aceitava o fim do relacionamento. Antes da tragédia, já existiam sinais claros de obsessão, posse e incapacidade de aceitar separação.

Esse é um dos indicadores mais perigosos em relacionamentos abusivos:

  • perseguição após término;

  • insistência excessiva;

  • monitoramento constante;

  • ameaças emocionais;

  • chantagens;

  • recusa em aceitar limites.

Muitas mulheres confundem insistência com amor intenso.
Mas obsessão não é amor.

Estados Unidos: o caso de Gabby Petito

Nos Estados Unidos, o caso de Gabby Petito ganhou repercussão internacional.

Em vídeos divulgados antes de sua morte, já era possível perceber sinais clássicos de violência psicológica:

  • desregulação emocional;

  • medo;

  • culpa excessiva;

  • tentativa constante de “acalmar” o parceiro;

  • desequilíbrio de poder na relação.

Especialistas observaram que muitos comportamentos apresentados eram compatíveis com dinâmica de abuso coercitivo — quando o agressor utiliza manipulação emocional, intimidação e controle progressivo para dominar a vítima.

Esse tipo de violência pode não deixar marcas físicas imediatas.
Mas destrói lentamente a segurança psicológica da mulher.

Sinais precoces que NÃO devem ser ignorados

1. Ciúme excessivo no início da relação

Ciúme intenso e rápido não é prova de amor profundo.
Pode ser sinal de possessividade e necessidade de controle.

2. Controle disfarçado de proteção

  • querer acesso às suas senhas;

  • controlar roupas;

  • monitorar localização;

  • afastar amizades;

  • criticar familiares;

  • exigir respostas imediatas.

Controle não é cuidado.

3. Oscilação entre idealização e desvalorização

O agressor coloca a mulher em um pedestal… e depois a destrói emocionalmente.

Esse ciclo cria dependência afetiva.

4. Gaslighting

Quando você começa a pensar:

  • “Talvez eu esteja exagerando.”

  • “Talvez a culpa seja minha.”

  • “Talvez eu esteja ficando confusa.”

É importante parar e observar.

Violência psicológica frequentemente começa pela destruição da autoconfiança.

5. Isolamento emocional

O abusador tenta afastar a mulher:

  • dos amigos;

  • da família;

  • da rede de apoio;

  • da independência financeira;

  • da autonomia emocional.

O isolamento aumenta o poder do agressor.

6. Ameaças emocionais

  • “Se você me deixar, eu acabo com minha vida.”

  • “Você vai se arrepender.”

  • “Ninguém mais vai te querer.”

  • “Você destruiu minha vida.”

Isso não é amor.
É coerção emocional.

O que muitas mulheres precisam compreender

Nem todo relacionamento abusivo começa violento fisicamente.

Muitos começam sedutores, intensos e aparentemente apaixonados.

Por isso a prevenção depende de educação emocional, consciência psicológica e identificação precoce dos sinais.

Quanto antes uma mulher reconhece:

  • controle;

  • manipulação;

  • intimidação;

  • obsessão;

  • isolamento;

  • violência psicológica;

maiores são as chances de interromper a escalada antes que ela se torne física.

Comportamentos protetivos importantes

O que fazer ao perceber sinais de abuso

  • Confie na sua percepção.

  • Não normalize medo constante.

  • Converse com pessoas de confiança.

  • Preserve sua autonomia financeira e emocional.

  • Documente ameaças e perseguições.

  • Procure ajuda psicológica.

  • Não enfrente situações perigosas sozinha.

  • Leve sinais de obsessão pós-término a sério.

Onde denunciar e buscar ajuda

Brasil

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher

  • Disque 100 — Direitos Humanos

  • Delegacias Especializadas da Mulher

  • Ministério Público

  • Aplicativos estaduais de denúncia

Estados Unidos

  • National Domestic Violence Hotline
    1-800-799-SAFE (7233)

  • Emergency: 911

  • The Hotline

  • Centros locais de apoio psicológico e jurídico para vítimas de violência doméstica

Conclusão

O feminicídio raramente começa no momento da agressão final.
Ele costuma começar muito antes — no controle silencioso, no isolamento emocional, no medo constante, na manipulação e na destruição progressiva da autonomia da mulher.

Identificar os sinais precocemente não é exagero.
É proteção.

Violência psicológica também é violência.
E ignorar seus primeiros sinais pode custar vidas.

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QUANDO OS PAIS NÃO QUEREM SER PAIS

A criança não pede muito.
Ela pede alguém que fique.
Mas ficar… exige mais do que a gente quer dar.

Entre a fuga do papel e a crise da formação humana contemporânea

Contexto Familiar Contemporâneo

A crise contemporânea da educação não se limita à ausência de métodos, mas revela algo mais profundo: a fragilidade das funções parentais.

Entre o excesso de permissividade e o excesso de controle - já problematizados por James Dobsonem - erge um fenômeno silencioso e inquietante: a recusa, explícita ou velada, de sustentar o papel de educar.

Nunca se falou tanto sobre educação, e ainda assim, nunca se viu uma geração tão marcada por ansiedade, desorientação e dificuldade de sustentar a própria existência diante do real.

Isso nos obriga a deslocar a pergunta. O problema não está apenas em como educar, mas em quem está disposto a sustentar o lugar de educador.

Já na década de 1980, James Dobson apontava dois extremos que produzem efeitos igualmente danosos: o excesso de reforço positivo e o excesso de punição. Ambos desorganizam. Ambos retiram da criança a possibilidade de construir uma relação estável com o mundo.

No entanto, o cenário contemporâneo acrescenta um terceiro elemento ainda mais delicado: a desresponsabilização afetiva e existencial dos adultos.

Hoje, não se trata apenas de educar mal. Em muitos casos, trata-se de não querer educar, de evitar o desgaste, o conflito, a frustração que fazem parte inevitável do processo de formação humana.

Educar, a partir de uma leitura fenomenológica, não é moldar comportamento. Não é produzir adequação social imediata. Educar é introduzir um ser no mundo, oferecendo-lhe direção, limite e sentido. É participar da abertura do seu ser-no-mundo, como nos permite pensar Martin Heidegger.

Quando essa introdução falha, o que se chama de liberdade torna-se, na verdade, uma forma sofisticada de desamparo. A criança não encontra contorno, não encontra medida, não encontra o outro como referência - e, sem isso, não há mundo habitável.

Nesse sentido, a tradição bíblica, muitas vezes reduzida a leituras simplistas ou fundamentalistas, oferece uma estrutura surpreendentemente sofisticada de formação humana.

Ela se organiza, em sua base, em três eixos: a lei, que estabelece limites e organiza o caos; a sabedoria, que permite discernimento e leitura de contexto; e o amor, que sustenta o vínculo sem transformar o limite em violência. Essa tríade impede tanto o autoritarismo quanto o abandono.

Não se trata de rigidez, mas de direção. Não se trata de controle, mas de responsabilidade.

Um dos fenômenos mais silenciosos - e ao mesmo tempo mais devastadores - da contemporaneidade é a anulação da função parental. Não é a ausência física de pais que mais desorganiza uma criança, mas a ausência simbólica de autoridade.

Quando um dos pais é constantemente desautorizado, quando decisões são invalidadas na frente da criança, quando há competição entre cuidadores ou quando a criança passa a ocupar o lugar de quem decide, algo fundamental se rompe.

A criança perde o eixo. Ela não sabe em quem confiar, não sabe o que é válido, não sabe o que organiza o mundo. E, sem essa referência, ela não ganha liberdade - ela ganha insegurança.

Quando os adultos não sustentam o lugar, a criança tenta compensar. Ela pode se tornar excessivamente adaptada, assumindo responsabilidades que não são suas, ou profundamente desorganizada, buscando no comportamento aquilo que não encontra na estrutura.

Em ambos os casos, há um movimento silencioso e profundamente humano: a tentativa de salvar o sistema ao qual pertence, mesmo que isso custe a si mesma. A criança não desiste do vínculo. Ela se rearranja dentro dele, ainda que isso implique sofrimento.

Outro aspecto relevante é o deslocamento das funções parentais. Avós, cuidadores, escolas e outros adultos podem - e muitas vezes devem - participar do cuidado. O problema não está na rede de apoio, mas na substituição desorganizada da autoridade.

Quando múltiplas vozes ocupam o lugar de decisão sem coerência, a criança se vê diante de um campo fragmentado. Ela não sabe a quem responder, a quem obedecer, a quem se referir. Isso não amplia sua liberdade. Isso a fragmenta internamente.

Nesse contexto, o desaparecimento do limite se torna um dos traços mais marcantes da educação contemporânea. Há uma dificuldade crescente de dizer “não”. No entanto, o “não” não é rejeição. O “não” é a primeira forma de realidade que a criança encontra. Ele introduz contorno, diferença, alteridade. Sem o “não”, não há experiência do outro, não há espera, não há construção de desejo. O limite não reprime - ele estrutura. Ele organiza a experiência do mundo.

A rotina, muitas vezes vista como algo secundário ou rígido, é na verdade o primeiro mundo que a criança habita. Ela oferece previsibilidade, continuidade, segurança. Através da repetição, a criança aprende que o mundo tem forma, que o tempo tem ritmo, que a existência não é um fluxo caótico. Sem rotina, a experiência do tempo se fragmenta, e com ela, a própria experiência de si.

Um dos equívocos mais comuns da contemporaneidade é colocar a criança no centro absoluto da família. Embora isso possa parecer cuidado, trata-se, na verdade, de uma sobrecarga.

A criança não precisa de poder. Ela precisa de estrutura. Quando se torna o eixo, ela perde o lugar de criança e assume uma posição para a qual não está preparada. Isso gera ansiedade, instabilidade e uma dificuldade profunda de lidar com o outro e com a realidade.

Educar também implica um movimento que talvez seja o mais difícil de todos: o deixar ir. Não de forma abrupta, mas progressiva. Permitir frustração, não antecipar todas as soluções, sustentar o desconforto da criança sem resgatá-la imediatamente.

Amar um filho não é protegê-lo do mundo, mas prepará-lo para ele. Sem esse movimento, a criança não se desenvolve plenamente. Ou permanece dependente, ou rompe de forma abrupta e muitas vezes violenta mais tarde.

Famílias funcionais não são famílias perfeitas. São famílias que conseguem sustentar minimamente seus papéis, que mantêm alguma coerência, que não colocam a criança no centro dos conflitos adultos, e que conseguem reconhecer seus próprios erros sem que isso leve ao colapso da estrutura.

A saúde não está na ausência de falhas, mas na capacidade de sustentação.

A crise da educação, portanto, não é apenas pedagógica. É existencial. Entre o controle excessivo e o abandono disfarçado de liberdade, o que se perdeu foi a coragem de sustentar o lugar de educador.

Educar exige presença que não sufoca, limite que não violenta e, sobretudo, a disposição de permanecer - mesmo quando é difícil, mesmo quando cansa, mesmo quando confronta.

Porque, no fim, filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes o suficiente para sustentar o mundo.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Psicopatia social não é exceção

“Esse texto nasce de uma experiência repetida: perceber que a violência nem sempre aparece como violência — mas organiza a vida.”

Este livro parte de uma tese:

“Há formas de violência que não são apenas individuais — são estruturais”.

Chamo isso de psicopatia social.

Não no sentido clínico tradicional, mas como um modo de funcionamento em que a violência se normaliza, se repete e deixa de ser percebida como violência.

Essa compreensão não surgiu de forma teórica.


Ela foi sendo construída a partir da experiência.

Durante muito tempo, vivi situações que, isoladamente, poderiam ser interpretadas como episódios pontuais.
Mas, ao longo dos anos, algo começou a se tornar evidente: a repetição.

Violência dentro de casa.
Violência na família.
Violência em contextos religiosos.
Violência no trabalho.

Em diferentes ambientes, com diferentes pessoas, o mesmo padrão se reorganizava.

O lugar da mulher, de forma recorrente, aparecia marcado por subjugação, opressão, controle e abuso.

Isso não se apresentava sempre de forma explícita.
Muitas vezes, vinha disfarçado de norma, de cultura, de expectativa.

E é justamente aí que o problema se sustenta.

Quando a violência deixa de ser reconhecida como violência, ela passa a organizar a realidade.

Por muito tempo, a tendência é acreditar que aquilo que se vive define quem se é.
Que os limites impostos por essas experiências delimitam também o que é possível se tornar.

Mas essa não é a única leitura possível.

“A Sombra do Patriarcado” não é uma autobiografia.
E também não é um tratado feminista no sentido clássico.

É uma tentativa de dar forma a esse reconhecimento:
de que existem estruturas que produzem e sustentam sofrimento — e que podem ser compreendidas.

E, ao serem compreendidas, deixam de operar da mesma maneira.

Este livro começa na violência.
Mas não termina nela.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

A Segunda Travessia

Uma travessia silenciosa entre quem se foi e quem começa a surgir. Entre o que já não sustenta e o que ainda não tem forma.

Dizem que existe um lugar onde tudo acontece.

— Um lugar de promessas largas.
— Portas abertas.
— Futuro à vista.

Dizem.

Conheço um jovem garoto que chegou lá.

— Sempre entre os melhores.
— Sempre destacado.
— Sempre em movimento.

E, mesmo assim, diz que só consegue respirar no Lado de Lá.

Talvez ele não odeie o lugar onde tudo acontece.

— Talvez tema o que acontece ali.

Porque tornar-se real custa.

Há quem atravesse oceanos para sobreviver.
Há quem atravesse fantasias para existir.

— Nem todo mundo está pronto para a segunda travessia.

Algumas travessias são visíveis.
Outras não aparecem em mapas, nem em rankings, nem em discursos de sucesso.

— Acontecem por dentro.

A segunda travessia não é sair.
É permanecer sem se perder.

— Mesmo quando tudo convida à performance.

Nem sempre é o mundo que exige demais.
Às vezes, é o sujeito que já foi longe demais de si.

E então, parar — ainda que por um instante — não é fracasso.

É retorno.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Crônica do Existir

Sem moral.
Sem fórmula.
Sem promessa de resolução.

Estas não são crônicas para ensinar, convencer ou oferecer respostas prontas.

São textos que nascem do intervalo —
do instante em que algo falha, escapa ou não se encaixa no discurso do sucesso.

Aqui, a vida não aparece como narrativa linear.


Aparece como experiência.
Às vezes fragmentada.
Às vezes silenciosa.
Quase sempre ambígua.

O Existir não se resume em grandes feitos, mas sobre aquilo que sustenta — ou desorganiza — o viver cotidiano:
o cansaço que não se explica,
a sensação de ter ido longe demais de si,
o estranhamento de continuar funcionando quando algo, por dentro, pede pausa.

Não se trata de psicologia aplicada,
nem de filosofia ilustrada,
nem de literatura terapêutica.

Trata-se de presença.

De permanecer com a pergunta
quando a resposta seria mais confortável.

De reconhecer que nem toda travessia é visível,
que nem toda queda é fracasso,
e que, às vezes, o gesto mais radical
não é avançar —
mas ficar.

Esses textos não pretendem conduzir.
Apenas acompanhar.

Se algo aqui tocar,
não é porque foi explicado,
mas porque já estava aí.

Apenas presença.

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Psicopatologia (principal), Personalidade, Saúde Mental Christianne Sturzeneker Psicopatologia (principal), Personalidade, Saúde Mental Christianne Sturzeneker

Não é Vaidade: O Que é Narcisismo Vulnerável de Verdade

Narcisismo vulnerável não é vaidade. Entenda os sinais, a relação com vergonha e dependência de validação, e como a psicoterapia pode ajudar.

Quando falamos em narcisismo, quase sempre imaginamos alguém arrogante, exibido, convencido de que é melhor do que os outros. Alguém que precisa ser o centro das atenções.

Mas existe uma forma de narcisismo que não parece grandiosa. Ela parece frágil. Sensível. Às vezes até tímida. É o chamado narcisismo vulnerável. E ele é muito mais comum do que se imagina.

Não é excesso de autoestima. É autoestima instável.

No narcisismo vulnerável, a autoestima não é sólida. Ela oscila. Num momento, a pessoa pode se sentir especial. No outro, profundamente insuficiente.

Um elogio traz alívio. Uma crítica pequena pode provocar um sofrimento desproporcional. O problema não é sentir. É depender demais do olhar do outro para se sentir inteiro.

A hipersensibilidade não é frescura.

A crítica dói de verdade. O silêncio pode ser interpretado como abandono. A demora numa resposta vira sinal de rejeição.

Quem observa de fora pode pensar: “Está exagerando.” Mas por dentro, a experiência é intensa e real. Existe um medo constante de não ser valorizado, de não ser reconhecido, de não ser importante. E esse medo é silencioso.

Vergonha é a palavra-chave. Se existe uma emoção central no narcisismo vulnerável, é a vergonha:

  • Vergonha de não ser bom o bastante;

  • Vergonha de precisar tanto de aprovação;

  • Vergonha de sentir inveja;

  • Vergonha de se comparar o tempo todo.

É uma estrutura interna que diz: “Se eu não for admirado, eu desapareço.” Relações ficam tensas — mesmo sem intenção. O narcisismo vulnerável pode afetar vínculos de maneira sutil.

A pessoa pode:

  • Precisar constantemente de confirmação de amor;

  • Interpretar neutralidade como frieza;

  • Guardar ressentimentos sem falar;

  • Alternar entre retraimento e cobranças emocionais.

Quem convive pode se sentir exausto, sem entender exatamente por quê. Não é maldade. É insegurança que tenta se proteger. Não é vaidade. Isso é importante repetir.

Narcisismo vulnerável não é excesso de amor-próprio. É dificuldade de sustentar valor próprio sem testemunha. É sentir que só se é alguém quando alguém está olhando.

Por isso a validação traz alívio — mas nunca resolve definitivamente. Porque o problema não está apenas no outro. Está na base frágil da autoimagem.

É possível mudar? Sim.

Mas não pela via da acusação ou da humilhação. A mudança começa quando a pessoa consegue:

  • Reconhecer sua dependência de validação;

  • Tolerar frustração sem colapsar;

  • Diferenciar crítica de rejeição;

  • Construir autoestima a partir de dentro;

  • Enfrentar a vergonha sem precisar se esconder ou atacar

Isso é trabalho emocional. É processo. É maturidade.

Psicoterapia não serve para “tirar defeitos”. Serve para fortalecer aquilo que nunca foi suficientemente sustentado. Em terapia, é possível compreender de onde vem essa necessidade intensa de validação e aprender, gradualmente, a sustentar valor próprio sem depender exclusivamente do olhar do outro.

Autoconhecimento não é exposição pública. É construção interna.

E isso é possível. Narcisismo vulnerável não é vaidade. É medo profundo de não ser visto — e de não existir sem o olhar do outro.

Você já se sentiu assim? 💛

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Ellen West: liberdade, perfeição e o silêncio que antecede o suicídio

Este texto integra uma série de reflexões sobre Daseinsanálise e saúde mental contemporânea.

(Uma leitura situada no horizonte da Daseinsanálise)

Você já ouviu falar de Ellen West?

Talvez não pelo nome. Mas talvez você reconheça algo dela nas exigências silenciosas que já sentiu dentro de si.

O caso foi apresentado no início do século XX pelo psiquiatra suíço Ludwig Binswanger. Desde então, atravessa debates clínicos, filosóficos e éticos.

Há críticas ao manejo clínico. Há revisões históricas. Há questionamentos importantes.

Este texto não pretende encerrar o debate.

É uma leitura situada no horizonte da Daseinsanálise — uma tentativa de compreender o sofrimento humano como forma de existência, sem reduzi-lo a um diagnóstico e sem romantizar seu desfecho.

Antes de qualquer teoria, precisamos começar pelo humano.

Quem era essa mulher?

Ellen era culta, sensível, intelectualmente brilhante e profundamente autoexigente. Desde jovem, vivia conflitos intensos com o corpo e com a alimentação.

Hoje, muitos a enquadrariam como um caso grave de anorexia nervosa associada a sofrimento depressivo. Mas se ficarmos apenas no diagnóstico, perdemos algo essencial.

Ela não sofria apenas com o corpo. Ela sofria com a ideia de limite. Desejava uma liberdade absoluta. Uma pureza sem falhas. Uma autenticidade radical.

Você consegue imaginar o peso de viver assim?

Internada na clínica de Binswanger, foi acompanhada por equipe psiquiátrica. Após receber alta, tirou a própria vida. O que torna esse caso singular não é apenas o desfecho trágico. É a pergunta que ele nos obriga a fazer:

Como compreender uma existência que parece não suportar a própria condição humana?

Como a psiquiatria da época via esse sofrimento?

No início do século XX, a psiquiatria europeia estava fortemente marcada por classificações diagnósticas rígidas e explicações biologizantes. A pergunta principal era: Qual é a doença?

O foco recaía sobre o sintoma, sua etiologia e sua categorização. O paciente era compreendido a partir do diagnóstico. Foi nesse cenário que Binswanger fez algo diferente. Em vez de perguntar apenas “o que ela tem?”, ele perguntou: Como ela está existindo?

Percebe a mudança? Não é apenas o sintoma. É o mundo que ela habita.

O diferencial do olhar existencial

Influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger, Binswanger passou a compreender o ser humano como Dasein — um ser que é abertura de mundo. Nós não somos apenas organismos. Somos possibilidades.

No caso de Ellen, parecia haver uma única possibilidade dominante: Ser perfeita; Ser pura; Ser absolutamente livre.

Quando uma única possibilidade domina todas as outras, o mundo se estreita. E um mundo estreito pode se tornar sufocante.

Liberdade, finitude, facticidade — e o vazio

A tradição existencial fala de liberdade, mas nunca como ausência de limite. No centro dessa reflexão está um conceito decisivo: facticidade.

Facticidade designa aquilo que já está dado na existência humana — o corpo, a história, as circunstâncias, os limites não escolhidos. Não é uma categoria abstrata; é a condição concreta do viver.

No caso de Ellen, o dado parecia insuportável.

O corpo não era morada, mas obstáculo. A alimentação não era sustento, mas ameaça. O cotidiano não era espaço de realização, mas cenário de insuficiência.

Sua vida parecia organizada em torno de um ideal absoluto — pureza, autenticidade, liberdade sem concessões. A realidade concreta, porém, nunca alcançava esse ideal. E quando a realidade é constantemente vivida como falha, algo se instala silenciosamente: o esvaziamento do mundo.

O vazio que atravessa seu relato não é mero sintoma depressivo. É um empobrecimento da experiência. As coisas perdem espessura. O futuro deixa de se apresentar como abertura e passa a ser antecipação de fracasso. O mundo não desaparece; ele se torna estreito.

É nesse ponto que a facticidade deixa de ser condição e passa a ser vivida como condenação.

Finitude e desproporção

Martin Heidegger descreveu o ser humano como ser-para-a-morte — não no sentido de impulso autodestrutivo, mas como consciência de finitude. A finitude não é ameaça em si. É estrutura da existência.

Ela lembra que o tempo é limitado, que a vida não é infinita, que cada escolha ocorre dentro de um horizonte restrito. Quando essa dimensão é integrada, a finitude pode intensificar a vida.

Quando não é integrada, pode ser vivida como intolerável.

No caso de Ellen, a desproporção entre ideal infinito e condição finita parece ter se tornado intransponível. O limite não era acolhido como humano; era vivido como falha absoluta.

O suicídio como estreitamento radical do mundo

É preciso afastar qualquer leitura romantizada. O suicídio não aparece aqui como gesto filosófico ou afirmação heroica.

Na perspectiva fenomenológica, ele pode ser compreendido como o momento em que o campo de possibilidades se estreita de forma extrema.

A decisão não surge no vazio. Surge quando o mundo já se tornou pobre em alternativas significativas.

Não se trata, necessariamente, de desejar a morte enquanto tal. Trata-se de não suportar a continuidade de uma forma de existir que perdeu sentido.

Quando a existência se reduz a uma única narrativa — e essa narrativa fracassa — o horizonte pode se fechar completamente.

O vazio, então, não é metáfora. É experiência de mundo.As críticas e o debate histórico

Décadas depois, o caso foi amplamente revisitado. Foram apontadas fragilidades no manejo clínico. Questionaram-se decisões institucionais. Discutiu-se o contexto cultural da época.

Essas críticas são legítimas e necessárias. Nenhum caso clínico está fora da história. Ainda assim, o texto de Binswanger permanece relevante porque deslocou o foco:

Da doença para o modo de ser-no-mundo. E isso influenciou profundamente a clínica existencial contemporânea.

Por que esse caso ainda nos fala hoje?

Olhe ao redor. Vivemos sob exigências de: Ser produtivo. Ser magro. Ser autêntico. Ser extraordinário. Quantas vezes a lógica interna se torna: “Ou sou plenamente aquilo que idealizei, ou não sou nada.”

Essa estrutura é silenciosa. Mas pode ser devastadora. Quando a existência é vivida apenas como fracasso diante do ideal, ela se estreita. E quando a vida perde significado, algumas pessoas começam a desistir de existir.

Não porque desejem a morte em si. Mas porque perderam o acesso ao sentido.

Como a Daseinsanálise pode ajudar?

A Daseinsanálise não é uma técnica de correção. Ela é uma escuta do modo como a pessoa está sendo-no-mundo. Em vez de perguntar apenas “qual é o seu problema?”, ela pergunta:

  • Como você está existindo?

  • Que possibilidades ficaram invisíveis?

  • Que narrativa se tornou rígida demais?

Muitas vezes, o sofrimento não nasce da incapacidade. Nasce da ausência de compreensão.

Quando alguém compreende sua própria história — quando consegue olhar para sua facticidade não como condenação, mas como chão — novas possibilidades podem emergir.

A Daseinsanálise trabalha exatamente nesse ponto: Ampliar o mundo. Não prometer perfeição.
Mas ajudar a pessoa a habitar sua própria história com mais liberdade possível dentro da finitude.

Uma palavra final — sobre vida

Escrever sobre Ellen West não é explicar seu gesto. É lembrar que toda existência pode se estreitar —
e também pode se reabrir. A vida humana é finita, imperfeita e vulnerável. Mas é justamente nessa condição que reside sua grandeza.

A ameaça da morte, enquanto verdade existencial, não precisa ser vivida como condenação. Ela pode ser vivida como chamado: Aprender a viver. Se você está atravessando sofrimento intenso, não faça isso sozinho.

Nos Estados Unidos: ligue ou envie mensagem para 988.
No Brasil: CVV — 188 (24h, gratuito)

Pedir ajuda não é fraqueza. É abertura. E abertura é sempre possibilidade.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

O que é Daseinsanalyse? Entenda a Psicoterapia Inspirada em Heidegger

O que é Daseinsanalyse? Conheça a psicoterapia existencial inspirada em Heidegger e compreenda como essa abordagem amplia o entendimento do sofrimento humano.

O que é Daseinsanalyse?

A Daseinsanalyse é uma abordagem de psicoterapia existencial inspirada na filosofia de Martin Heidegger. Diferente das correntes que reduzem o sofrimento a sintomas ou diagnósticos isolados, a Daseinsanalyse busca compreender o modo de ser da pessoa no mundo.

Ela não parte da pergunta “qual é o transtorno?”, mas sim:
como essa pessoa está existindo?

O sofrimento não é visto apenas como desordem, mas como expressão de um modo de estar-no-mundo que perdeu fluidez, abertura ou sentido.

A origem da Daseinsanalyse

A Daseinsanalyse surge a partir do diálogo entre o psiquiatra Ludwig Binswanger, posteriormente Medard Boss, e a filosofia de Heidegger.

Heidegger descreve o ser humano como Dasein — ser-aí — um ser que existe sempre em relação ao mundo, aos outros e a si mesmo.

A clínica daseinsanalítica traz essa compreensão para o consultório:

O paciente não é um conjunto de sintomas.
É um ser-em-situação.

Qual a diferença entre Daseinsanalyse e Psicanálise?

Enquanto a psicanálise tradicional investiga conflitos inconscientes estruturados pela história psíquica, a Daseinsanalyse volta-se para a estrutura existencial do presente.

Ela pergunta:

  • Como essa pessoa se relaciona com o tempo?

  • Como habita suas escolhas?

  • Como vive a liberdade e a responsabilidade?

O foco não é apenas o passado, mas a abertura para possibilidades futuras.

Quando a Daseinsanalyse é indicada?

A psicoterapia existencial pode ser indicada para:

  • Crises de sentido

  • Ansiedade existencial

  • Sofrimento ligado a escolhas e liberdade

  • Sensação de vazio

  • Dificuldades relacionais

  • Conflitos de identidade

Ela é especialmente potente quando o sofrimento não se reduz a categorias diagnósticas claras, mas envolve questões de sentido e modo de existir.

A Daseinsanalyse é uma terapia prática?

Sim.

Apesar de ter base filosófica, sua aplicação clínica é concreta.
A escuta é fenomenológica: descreve-se a experiência antes de interpretá-la.

O processo terapêutico ajuda a pessoa a:

  • Reconhecer seus modos habituais de existir

  • Perceber limitações autoimpostas

  • Reabrir possibilidades

  • Assumir responsabilidade por suas escolhas

Não é uma terapia de correção, mas de clarificação.

Daseinsanalyse na prática clínica contemporânea

Na atualidade, marcada por aceleração, medicalização e hiperdiagnóstico, a Daseinsanalyse oferece um espaço de pausa.

Ela não ignora a ciência, mas também não reduz o humano a classificações.

O centro da clínica volta a ser a pergunta fundamental:

Quem é esse ser que sofre?

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

O humano diante de si: liberdade, angústia e sentido

O cuidado começa quando nos permitimos permanecer diante da vida.

O cuidado começa quando nos permitimos permanecer diante da vida.

Você já teve a sensação de que a vida está acontecendo, mas você está apenas acompanhando?


Os dias seguem, as tarefas se acumulam, tudo parece funcionar — e, ainda assim, algo fica fora do lugar. Não chega a ser tristeza, nem exatamente dor. É um incômodo silencioso, difícil de nomear, como se a vida estivesse sendo vivida no automático.

Essa experiência é mais comum do que se imagina. Em algum momento, muitas pessoas se dão conta de que estão cumprindo expectativas, respondendo às demandas do cotidiano, resolvendo o que precisa ser resolvido — mas sem se sentirem verdadeiramente presentes na própria vida.

Surge então uma pergunta discreta, às vezes incômoda: em que momento eu me afastei de mim mesmo?

O ser humano não nasce com um manual de instruções sobre si. Não há um roteiro prévio que diga quem devemos ser, como viver ou quais escolhas garantirão sentido.

Existir é estar lançado em uma abertura: decisões que precisam ser tomadas, perdas que não podem ser evitadas, possibilidades que se apresentam e limites que se impõem.

É justamente nesse campo aberto — e por vezes desconcertante — que emergem experiências como a angústia, o medo da morte, a sensação de não saber exatamente quem se é ou para onde se está indo.

Essas vivências costumam ser tratadas como sinais de fraqueza ou desequilíbrio, algo que deveria ser rapidamente eliminado. No entanto, na perspectiva fenomenológico-existencial, elas não são falhas do sujeito.

São experiências estruturais da existência humana. Elas surgem quando a pessoa se vê confrontada com a própria vida, com o tempo que passa, com a necessidade de escolher e com a impossibilidade de delegar totalmente essa tarefa a outros.

Nesse sentido, a liberdade raramente aparece como leveza. Com frequência, ela se manifesta como vertigem. Como afirma Søren Kierkegaard, a angústia é a vertigem da liberdade.

A angústia surge quando o sujeito se vê diante da possibilidade de poder ser — sem garantias, sem promessas de acerto, sem caminhos totalmente seguros. Ser livre é perceber que ninguém pode viver por nós.

Na vida cotidiana, essa vertigem se revela de muitas formas: na dúvida diante de uma escolha importante, no incômodo persistente de uma vida que “funciona”, mas não faz sentido, no medo silencioso que aparece quando percebemos que o tempo passa e não pode ser recuperado, ou naquela inquietação que surge justamente quando tudo parece estar “em ordem”.

Por isso, muitos sofrimentos contemporâneos não decorrem da falta de liberdade, mas da dificuldade de habitá-la. Para escapar da angústia que a liberdade provoca, o indivíduo pode buscar diferentes formas de anestesia existencial: dependências emocionais ou químicas, relações excessivamente controladoras, identidades prontas que oferecem pertencimento imediato, rotinas rígidas que evitam o contato consigo mesmo.

Nesses casos, a liberdade deixa de ser vivida como abertura e passa a ser sentida como peso, culpa ou até como uma condenação silenciosa.

A Daseinsanalyse compreende o sofrimento psíquico não como um defeito interno ou um problema isolado do indivíduo, mas como um modo de estar-no-mundo que perdeu flexibilidade, presença ou sentido.

O sofrimento aparece quando a relação da pessoa consigo mesma, com os outros ou com o tempo se estreita a ponto de não permitir mais movimento. Não se trata de algo “quebrado” no sujeito, mas de uma existência que pede escuta.

O trabalho terapêutico, nessa perspectiva, não busca corrigir, ajustar ou normalizar o indivíduo. Ele procura reabrir espaços: espaço para que a pessoa possa se aproximar da própria experiência, sustentar escolhas, reconhecer limites, atravessar angústias e reencontrar uma relação mais viva consigo, com o mundo e com a própria finitude.

A clínica se torna, assim, um lugar de cuidado, presença e possibilidade.

Encontrar sentido não significa eliminar a angústia, nem alcançar um estado permanente de bem-estar. Significa aprender a atravessá-la sem precisar fugir dela.

É nesse movimento — delicado e profundamente humano — que a pessoa deixa de buscar uma versão ideal de si mesma e começa, pouco a pouco, a se sustentar no existir.

Quando esse atravessamento se torna difícil demais para ser feito sozinho — seja porque a angústia se intensifica, seja porque a vida parece estreitar-se em repetições, conflitos ou perdas — a psicoterapia pode oferecer um espaço de cuidado e acompanhamento.

Na Daseinsanalyse, o processo terapêutico não oferece respostas prontas, mas um campo de escuta onde é possível compreender o próprio modo de existir e construir caminhos mais próprios.

Se este texto tocou algo da sua experiência atual, talvez este seja um momento oportuno para não atravessar tudo sozinho.

O cuidado começa quando nos permitimos pedir apoio.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Série Espelhos do Eu

Espelhos do Eu investiga o narcisismo, a imagem e o trauma como modos de existir, a partir do diálogo entre a Psicologia Analítica e a Daseinsanalyse. Um convite a sair do espelho e reencontrar o Outro.

Diálogos existenciais

Espelhos do Eu

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Origem

O projeto Espelhos do Eu nasceu de uma inquietação clínica e existencial que eu já vinha sustentando há algum tempo: a sensação de que estamos falando demais sobre diagnósticos e cada vez menos sobre modos de existir.

Na clínica, nas redes sociais e nas relações cotidianas, algo se repete com insistência: sujeitos profundamente presos à imagem, ao olhar do Outro, à validação constante — e, ao mesmo tempo, frágeis, feridos e esvaziados de sentido. Quanto mais a imagem cresce, mais o encontro parece desaparecer.

Foi desse lugar que surgiu o desejo de criar um espaço de reflexão que não fosse nem simplificador, nem sensacionalista. Um espaço capaz de sustentar perguntas difíceis, sem pressa de respondê-las.

Divido esse projeto com minha colega e parceira de diálogo, Cássia Reis, psicóloga analista junguiana. Cada uma fala a partir de seu campo — ela, da Psicologia Analítica; eu, da Daseinsanalyse —, mas ambas sustentamos uma ética comum: não reduzir o sofrimento humano a rótulos, nem confundir clínica com moralização.

Durante o mês de janeiro de 2026, realizamos uma série de lives semanais, apresentadas no canal de YouTube da Cássia (@Cassiareispsi), sempre às 20h (horário do Brasil).

As três primeiras lives já foram apresentadas — sendo que as lives 1 e 2 ocorreram juntas — e este texto nasce também como uma forma de registrar, aprofundar e devolver ao leitor aquilo que foi trabalhado nesses encontros.

O que nos moveu desde o início

Desde a primeira conversa, ficou claro para nós que Espelhos do Eu não seria uma série “sobre o narcisista”, mas sobre o que acontece com o Eu quando ele só consegue existir através do espelho do olhar do Outro.

Não nos interessava repetir definições prontas.
Nos interessava sustentar perguntas como:

O que esse modo de existir revela sobre nosso tempo?
Que feridas estão sendo encobertas pela imagem?
O que se perde quando o encontro é substituído pela performance?

Essas perguntas atravessaram, de formas diferentes, todas as três primeiras lives.

Live 1 – Narcisismo, imagem e constituição do Eu

(Abertura da série | Lives 1 e 2 apresentadas juntas)

Na primeira live, nosso cuidado foi fundar o problema, antes de qualquer discussão clínica mais densa. Fiz questão de deixar claro, desde o início, que narcisismo não é sinônimo de vaidade, e muito menos um julgamento moral.

Falamos do narcisismo como modo de existir.

A ideia central que sustentou essa abertura foi simples e radical: quando o Eu precisa do espelho para existir, o Outro deixa de existir como Outro.

A partir da Psicologia Analítica, Cassia discorreu como o narcisismo apareceu como fixação na imagem, ligada à hipertrofia da persona e à dificuldade de integração da sombra.


A partir da Daseinsanalyse, trabalhei o narcisismo como queda existencial: uma forma de ser-no-mundo marcada pela aparência, pela validação constante e pela perda da co-presença (Mitsein).

Essa live não teve como objetivo explicar categorias, mas preparar o solo para tudo o que viria depois.

Aqui, rompemos conscientemente com leituras moralizantes. Falamos de histórias de abandono, violência, negligência emocional e silenciamento, mostrando como, muitas vezes, aquilo que aparece como inflacionamento do Eu é, na verdade, uma tentativa de sobrevivência.

A partir da Psicologia Analítica, o trauma foi compreendido como ruptura do processo de individuação, levando o sujeito a se proteger na imagem. A persona deixa de ser mediação com o mundo e passa a ser armadura.

Na Daseinsanalyse, trabalhei o trauma como retração do mundo: o mundo se estreita, o Outro se torna ameaça ou função, e as possibilidades existenciais se empobrecem. O sujeito não “adquire um transtorno”, mas passa a habitar um mundo muito mais limitado.

Essa live foi profundamente clínica — e profundamente ética.

Live 3 – Quando o espelho vira poder

Narcisismo, controle e desaparecimento do Outro

Na terceira live, entramos em um terreno mais delicado: o momento em que o espelho deixa de ser apenas defesa e passa a se tornar instrumento de poder.

Falamos do prazer no olhar, da necessidade de controle, da manipulação da imagem e da redução do Outro a objeto. Aqui, tornou-se evidente que certas formas de narcisismo já não estão ligadas apenas à fragilidade, mas à recusa radical da alteridade.

Do ponto de vista junguiano, emergiu com força o tema da sombra não integrada e da inflação do ego.


Do ponto de vista heideggeriano, trabalhei a ideia de que, quando o Outro desaparece como Outro, o mundo deixa de ser espaço de encontro e se transforma em campo de uso.

Essa live abriu, conscientemente, o caminho para questões mais duras — perversão, dominação e responsabilidade — que serão aprofundadas nos próximos encontros.

Algumas provocações para seguir pensando

Vivemos um tempo em que o Eu precisa ser visto para existir. O olhar do Outro tornou-se espelho, medida e garantia de realidade. Mas o que acontece quando o Eu se fixa nessa imagem refletida? O que se perde quando a existência depende do reflexo?

Antes de qualquer classificação psicopatológica, o narcisismo se apresenta como fenômeno relacional: um Eu que depende do reflexo para sustentar sua própria presença. O espelho, aqui, não é vaidade — é dependência ontológica.

Quando o Eu só se reconhece na imagem devolvida, o Outro deixa de ser alteridade e passa a ser função: olhar, confirmar, sustentar, validar. Esse deslocamento é decisivo para a clínica contemporânea.

Na Psicologia Analítica, muitos quadros de inflacionamento do Eu não nascem da força, mas de feridas precoces. Em histórias traumáticas, a persona torna-se armadura e a imagem funciona como tentativa de sobrevivência psíquica. O trabalho clínico busca reintegrar o que foi dissociado e retomar o processo de individuação interrompido.

Na Daseinsanalyse, o sofrimento é compreendido como modificação do modo de ser-no-mundo. Traumas produzem retração do mundo, perda da confiança na co-presença e empobrecimento das possibilidades existenciais. A clínica não corrige o sujeito — reabre o mundo.

Jung e Heidegger convergem em um ponto decisivo: quando o Eu depende do espelho para existir, o Outro deixa de existir como Outro. A clínica, então, não fortalece a imagem, mas aposta no encontro.

Encerramos essas três primeiras lives sem fechar respostas. E isso foi intencional.

Deixo aqui algumas provocações que continuam nos atravessando — e que talvez atravessem você também:

  • O que, em mim, ainda precisa do espelho para existir?

  • Em que momentos transformo o Outro em função, em vez de encontro?

  • O que a imagem está encobrindo que eu não consigo sustentar?

  • Que mundo se fecha quando o olhar do Outro se torna condição de ser?



Talvez o trabalho clínico — e o trabalho consigo mesmo — comece exatamente aí:

“No ponto em que ousamos sair da imagem e nos expor ao risco do encontro”.





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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Antes da psicologia, havia o humano

O sofrimento psíquico não nasceu com a psicologia. Ele acompanha o humano desde que o humano existe. Um convite a lembrar o cuidado antes da técnica.

Muito antes de existir uma ciência dedicada à mente, já existia o humano em sua experiência mais elementar: nascer, sofrer, amar, temer, perder e buscar sentido. O sofrimento psíquico não surgiu com a psicologia; ele acompanha o humano desde que o humano se reconheceu como tal.

O corpo, o tempo e a relação com o outro antecedem qualquer teoria. A experiência de dor, de angústia e de desamparo não precisou de nome para existir. Ela se dava no cotidiano, nos vínculos, nos rituais, nas narrativas e nas formas simbólicas de habitar o mundo.

A psicologia nasce tardiamente na história, como tentativa de responder a algo que já estava em curso: o sofrimento humano em um mundo que se tornava cada vez mais abstrato, técnico e fragmentado. Antes disso, o cuidado se expressava em práticas comunitárias, religiosas, filosóficas e culturais, nas quais o sofrimento era compreendido como parte da existência, e não como falha individual.

Lembrar que houve humano antes da psicologia não é um gesto de negação da ciência, mas de humildade clínica. Significa recolocar o cuidado antes da técnica, a experiência antes do conceito, e o encontro antes da classificação.

Talvez o desafio contemporâneo da clínica seja justamente esse: não esquecer que, antes de qualquer saber especializado, há um humano tentando existir em meio às suas possibilidades e limites.

A caminho da Clareira….

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Quando o humano se tornou pergunta

Em algum momento da história, o humano começou a se perguntar sobre si mesmo. Esse gesto inaugurou o pensamento, a ontologia e novas formas de compreender o existir.

Contemplation

Houve um tempo em que o humano simplesmente vivia. Habitava a natureza, os ciclos, o corpo e a comunidade sem se perguntar explicitamente sobre si mesmo. A vida se dava no ritmo das estações, dos rituais e das necessidades imediatas. Não havia ainda a separação entre viver e pensar a vida.

Em algum momento da história, porém, algo se deslocou. O humano começou a se perguntar. Quem sou? O que é isso que existe? Por que sofro? O que significa viver? Esse gesto aparentemente simples marcou uma ruptura profunda: o humano deixou de estar apenas imerso no mundo e passou a se colocar diante dele.

Quando o humano se tornou pergunta, nasceu o pensamento reflexivo. Com ele, surgiram a filosofia, a linguagem conceitual e, mais tarde, a ciência. O mundo deixou de ser apenas vivido e passou a ser interpretado, explicado, representado. Esse movimento abriu possibilidades extraordinárias de compreensão, mas também instaurou uma distância crescente entre o humano e sua experiência imediata.

A ontologia nasce justamente nesse ponto: quando o ser passa a ser interrogado. O que é o ser? O que significa existir? Essas perguntas atravessam a história da filosofia desde a Grécia antiga e moldam profundamente a forma como o Ocidente aprendeu a pensar o mundo e a si mesmo.

No entanto, à medida que o pensamento se torna mais abstrato, corre-se o risco de esquecer o solo da experiência concreta. O ser passa a ser pensado como ideia, substância ou conceito, enquanto a existência cotidiana — com seu sofrimento, sua ambiguidade e sua fragilidade — fica em segundo plano.

A clínica contemporânea herda essa tensão. Muitas vezes, ela opera a partir de conceitos altamente elaborados, mas distantes da experiência viva do sujeito. Recuperar o momento em que o humano se tornou pergunta não é um exercício erudito, mas um gesto clínico: lembrar que toda teoria nasce de uma tentativa de responder ao sofrimento e ao mistério de existir.

Talvez a tarefa da clínica hoje seja justamente essa: sustentar o pensamento sem perder o chão da experiência, e permitir que a pergunta pelo ser volte a nascer no encontro singular com cada existência.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Por que a psicologia precisou nascer

A psicologia surge como resposta histórica a um sofrimento histórico. Entre ciência e cuidado, ela carrega tensões que ainda atravessam a clínica contemporânea.

A psicologia não nasce por acaso. Ela emerge em um momento específico da história, quando as formas tradicionais de cuidado já não conseguem responder ao sofrimento humano que se intensifica com a modernidade. O mundo se torna mais técnico, mais acelerado, mais fragmentado — e o sujeito começa a se sentir deslocado de si, dos outros e do sentido da existência.

Antes da psicologia, o sofrimento era acolhido por narrativas religiosas, filosóficas, comunitárias e simbólicas. Havia rituais, mitos, confissões, práticas de cuidado compartilhadas. Com o avanço da ciência moderna, essas formas de acolhimento perdem centralidade, e o sofrimento passa a ser progressivamente medicalizado, classificado e tratado como disfunção.

A psicologia nasce nesse intervalo: entre o colapso das narrativas tradicionais e a insuficiência de uma ciência puramente objetiva para dar conta da experiência subjetiva. Ela surge como tentativa de compreender aquilo que não se deixa reduzir nem ao corpo biológico, nem ao cálculo técnico.

No entanto, ao buscar reconhecimento científico, a psicologia frequentemente se aproxima dos modelos explicativos das ciências naturais. O sofrimento passa a ser descrito em termos de sintomas, estruturas, funções e déficits. Embora esse movimento tenha produzido avanços importantes, ele também gerou um afastamento da experiência vivida do sujeito.

É nesse contexto que as abordagens fenomenológicas e existenciais ganham relevância. Elas surgem como uma resposta crítica à redução do humano a objeto de estudo, recolocando no centro da clínica a existência concreta, histórica e situada de cada pessoa.

A Daseinsanálise se insere nesse movimento ao afirmar que o sofrimento psíquico não é algo que o indivíduo possui, mas algo que se manifesta no modo como ele existe no mundo. A clínica deixa de perguntar apenas “o que está errado?” e passa a perguntar “como essa existência está sendo vivida?”.

Compreender por que a psicologia precisou nascer é fundamental para não absolutizar seus modelos nem negar sua importância. Significa reconhecer que ela é uma resposta histórica a um sofrimento histórico — e que, portanto, precisa permanecer aberta à revisão, ao questionamento e ao diálogo com outras formas de saber.

Talvez o futuro da clínica dependa justamente disso: lembrar que a psicologia nasceu para cuidar do humano e que, sempre que se distancia desse cuidado, precisa reaprender a escutar.

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Christianne Sturzeneker Christianne Sturzeneker

Quando o diagnóstico empobrece a escuta clínica

Quando o diagnóstico se antecipa à escuta, algo do humano se perde. Uma reflexão clínica sobre os limites das categorias e a necessidade de recolocar a experiência no centro do cuidado.

A clínica contemporânea convive com um paradoxo silencioso: quanto mais sofisticados se tornam os sistemas diagnósticos, maior parece ser o risco de empobrecimento da escuta. O diagnóstico, que deveria orientar o cuidado, frequentemente se antecipa ao encontro clínico, organizando a escuta antes mesmo que o sofrimento possa se dizer.

Quando o nome vem antes da experiência, algo do humano se perde. O sujeito passa a ser lido a partir de categorias previamente estabelecidas, e não a partir do modo singular como existe, sofre, se relaciona e atribui sentido ao que vive. A clínica, então, corre o risco de se tornar um exercício de reconhecimento de padrões, e não de encontro.

Nas abordagens existenciais, essa tensão aparece de formas distintas. Algumas vertentes mantêm o diagnóstico como referência técnica, ainda que relativizada, buscando conciliá-lo com uma escuta fenomenológica. Outras tentam suspender o diagnóstico, mas acabam substituindo-o por explicações igualmente fechadas sobre sentido, autenticidade ou projeto de vida. O risco, em ambos os casos, permanece: transformar a experiência viva em conceito estabilizado.

A Daseinsanálise propõe um deslocamento mais radical. Não se trata de negar o diagnóstico, nem de absolutizá-lo, mas de recolocá-lo em seu lugar secundário. O sofrimento psíquico não é algo que o indivíduo possui, mas algo que se manifesta no modo como ele existe no mundo, se vincula, se temporaliza e se compreende. Antes de perguntar “o que ele tem?”, a escuta se orienta pela pergunta “como ele está sendo?”.

Esse deslocamento exige uma clínica menos apressada, menos explicativa e menos ansiosa por respostas. Exige tolerar o não-saber, sustentar a ambiguidade e acompanhar o desvelamento progressivo do sentido, que não se apresenta de uma vez, nem se deixa capturar por categorias prontas.

Quando o diagnóstico ocupa o centro da clínica, ele tende a empobrecer a escuta. Quando retorna ao seu lugar de ferramenta — e não de fundamento — a clínica recupera sua dimensão ética: a de cuidar do humano não como objeto de intervenção, mas como existência em abertura.

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