Série Espelhos do Eu

Diálogos existenciais

Espelhos do Eu

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Origem

O projeto Espelhos do Eu nasceu de uma inquietação clínica e existencial que eu já vinha sustentando há algum tempo: a sensação de que estamos falando demais sobre diagnósticos e cada vez menos sobre modos de existir.

Na clínica, nas redes sociais e nas relações cotidianas, algo se repete com insistência: sujeitos profundamente presos à imagem, ao olhar do Outro, à validação constante — e, ao mesmo tempo, frágeis, feridos e esvaziados de sentido. Quanto mais a imagem cresce, mais o encontro parece desaparecer.

Foi desse lugar que surgiu o desejo de criar um espaço de reflexão que não fosse nem simplificador, nem sensacionalista. Um espaço capaz de sustentar perguntas difíceis, sem pressa de respondê-las.

Divido esse projeto com minha colega e parceira de diálogo, Cássia Reis, psicóloga analista junguiana. Cada uma fala a partir de seu campo — ela, da Psicologia Analítica; eu, da Daseinsanalyse —, mas ambas sustentamos uma ética comum: não reduzir o sofrimento humano a rótulos, nem confundir clínica com moralização.

Durante o mês de janeiro de 2026, realizamos uma série de lives semanais, apresentadas no canal de YouTube da Cássia (@Cassiareispsi), sempre às 20h (horário do Brasil).

As três primeiras lives já foram apresentadas — sendo que as lives 1 e 2 ocorreram juntas — e este texto nasce também como uma forma de registrar, aprofundar e devolver ao leitor aquilo que foi trabalhado nesses encontros.

O que nos moveu desde o início

Desde a primeira conversa, ficou claro para nós que Espelhos do Eu não seria uma série “sobre o narcisista”, mas sobre o que acontece com o Eu quando ele só consegue existir através do espelho do olhar do Outro.

Não nos interessava repetir definições prontas.
Nos interessava sustentar perguntas como:

O que esse modo de existir revela sobre nosso tempo?
Que feridas estão sendo encobertas pela imagem?
O que se perde quando o encontro é substituído pela performance?

Essas perguntas atravessaram, de formas diferentes, todas as três primeiras lives.

Live 1 – Narcisismo, imagem e constituição do Eu

(Abertura da série | Lives 1 e 2 apresentadas juntas)

Na primeira live, nosso cuidado foi fundar o problema, antes de qualquer discussão clínica mais densa. Fiz questão de deixar claro, desde o início, que narcisismo não é sinônimo de vaidade, e muito menos um julgamento moral.

Falamos do narcisismo como modo de existir.

A ideia central que sustentou essa abertura foi simples e radical: quando o Eu precisa do espelho para existir, o Outro deixa de existir como Outro.

A partir da Psicologia Analítica, Cassia discorreu como o narcisismo apareceu como fixação na imagem, ligada à hipertrofia da persona e à dificuldade de integração da sombra.


A partir da Daseinsanalyse, trabalhei o narcisismo como queda existencial: uma forma de ser-no-mundo marcada pela aparência, pela validação constante e pela perda da co-presença (Mitsein).

Essa live não teve como objetivo explicar categorias, mas preparar o solo para tudo o que viria depois.

Aqui, rompemos conscientemente com leituras moralizantes. Falamos de histórias de abandono, violência, negligência emocional e silenciamento, mostrando como, muitas vezes, aquilo que aparece como inflacionamento do Eu é, na verdade, uma tentativa de sobrevivência.

A partir da Psicologia Analítica, o trauma foi compreendido como ruptura do processo de individuação, levando o sujeito a se proteger na imagem. A persona deixa de ser mediação com o mundo e passa a ser armadura.

Na Daseinsanalyse, trabalhei o trauma como retração do mundo: o mundo se estreita, o Outro se torna ameaça ou função, e as possibilidades existenciais se empobrecem. O sujeito não “adquire um transtorno”, mas passa a habitar um mundo muito mais limitado.

Essa live foi profundamente clínica — e profundamente ética.

Live 3 – Quando o espelho vira poder

Narcisismo, controle e desaparecimento do Outro

Na terceira live, entramos em um terreno mais delicado: o momento em que o espelho deixa de ser apenas defesa e passa a se tornar instrumento de poder.

Falamos do prazer no olhar, da necessidade de controle, da manipulação da imagem e da redução do Outro a objeto. Aqui, tornou-se evidente que certas formas de narcisismo já não estão ligadas apenas à fragilidade, mas à recusa radical da alteridade.

Do ponto de vista junguiano, emergiu com força o tema da sombra não integrada e da inflação do ego.


Do ponto de vista heideggeriano, trabalhei a ideia de que, quando o Outro desaparece como Outro, o mundo deixa de ser espaço de encontro e se transforma em campo de uso.

Essa live abriu, conscientemente, o caminho para questões mais duras — perversão, dominação e responsabilidade — que serão aprofundadas nos próximos encontros.

Algumas provocações para seguir pensando

Vivemos um tempo em que o Eu precisa ser visto para existir. O olhar do Outro tornou-se espelho, medida e garantia de realidade. Mas o que acontece quando o Eu se fixa nessa imagem refletida? O que se perde quando a existência depende do reflexo?

Antes de qualquer classificação psicopatológica, o narcisismo se apresenta como fenômeno relacional: um Eu que depende do reflexo para sustentar sua própria presença. O espelho, aqui, não é vaidade — é dependência ontológica.

Quando o Eu só se reconhece na imagem devolvida, o Outro deixa de ser alteridade e passa a ser função: olhar, confirmar, sustentar, validar. Esse deslocamento é decisivo para a clínica contemporânea.

Na Psicologia Analítica, muitos quadros de inflacionamento do Eu não nascem da força, mas de feridas precoces. Em histórias traumáticas, a persona torna-se armadura e a imagem funciona como tentativa de sobrevivência psíquica. O trabalho clínico busca reintegrar o que foi dissociado e retomar o processo de individuação interrompido.

Na Daseinsanalyse, o sofrimento é compreendido como modificação do modo de ser-no-mundo. Traumas produzem retração do mundo, perda da confiança na co-presença e empobrecimento das possibilidades existenciais. A clínica não corrige o sujeito — reabre o mundo.

Jung e Heidegger convergem em um ponto decisivo: quando o Eu depende do espelho para existir, o Outro deixa de existir como Outro. A clínica, então, não fortalece a imagem, mas aposta no encontro.

Encerramos essas três primeiras lives sem fechar respostas. E isso foi intencional.

Deixo aqui algumas provocações que continuam nos atravessando — e que talvez atravessem você também:

  • O que, em mim, ainda precisa do espelho para existir?

  • Em que momentos transformo o Outro em função, em vez de encontro?

  • O que a imagem está encobrindo que eu não consigo sustentar?

  • Que mundo se fecha quando o olhar do Outro se torna condição de ser?



Talvez o trabalho clínico — e o trabalho consigo mesmo — comece exatamente aí:

“No ponto em que ousamos sair da imagem e nos expor ao risco do encontro”.



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Você pode acessar as lives através do link: https://shre.ink/5Gli (Cassiareispsi)



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Antes da psicologia, havia o humano