Quando o diagnóstico empobrece a escuta clínica

A clínica contemporânea convive com um paradoxo silencioso: quanto mais sofisticados se tornam os sistemas diagnósticos, maior parece ser o risco de empobrecimento da escuta. O diagnóstico, que deveria orientar o cuidado, frequentemente se antecipa ao encontro clínico, organizando a escuta antes mesmo que o sofrimento possa se dizer.

Quando o nome vem antes da experiência, algo do humano se perde. O sujeito passa a ser lido a partir de categorias previamente estabelecidas, e não a partir do modo singular como existe, sofre, se relaciona e atribui sentido ao que vive. A clínica, então, corre o risco de se tornar um exercício de reconhecimento de padrões, e não de encontro.

Nas abordagens existenciais, essa tensão aparece de formas distintas. Algumas vertentes mantêm o diagnóstico como referência técnica, ainda que relativizada, buscando conciliá-lo com uma escuta fenomenológica. Outras tentam suspender o diagnóstico, mas acabam substituindo-o por explicações igualmente fechadas sobre sentido, autenticidade ou projeto de vida. O risco, em ambos os casos, permanece: transformar a experiência viva em conceito estabilizado.

A Daseinsanálise propõe um deslocamento mais radical. Não se trata de negar o diagnóstico, nem de absolutizá-lo, mas de recolocá-lo em seu lugar secundário. O sofrimento psíquico não é algo que o indivíduo possui, mas algo que se manifesta no modo como ele existe no mundo, se vincula, se temporaliza e se compreende. Antes de perguntar “o que ele tem?”, a escuta se orienta pela pergunta “como ele está sendo?”.

Esse deslocamento exige uma clínica menos apressada, menos explicativa e menos ansiosa por respostas. Exige tolerar o não-saber, sustentar a ambiguidade e acompanhar o desvelamento progressivo do sentido, que não se apresenta de uma vez, nem se deixa capturar por categorias prontas.

Quando o diagnóstico ocupa o centro da clínica, ele tende a empobrecer a escuta. Quando retorna ao seu lugar de ferramenta — e não de fundamento — a clínica recupera sua dimensão ética: a de cuidar do humano não como objeto de intervenção, mas como existência em abertura.

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