Por que a psicologia precisou nascer
A psicologia não nasce por acaso. Ela emerge em um momento específico da história, quando as formas tradicionais de cuidado já não conseguem responder ao sofrimento humano que se intensifica com a modernidade. O mundo se torna mais técnico, mais acelerado, mais fragmentado — e o sujeito começa a se sentir deslocado de si, dos outros e do sentido da existência.
Antes da psicologia, o sofrimento era acolhido por narrativas religiosas, filosóficas, comunitárias e simbólicas. Havia rituais, mitos, confissões, práticas de cuidado compartilhadas. Com o avanço da ciência moderna, essas formas de acolhimento perdem centralidade, e o sofrimento passa a ser progressivamente medicalizado, classificado e tratado como disfunção.
A psicologia nasce nesse intervalo: entre o colapso das narrativas tradicionais e a insuficiência de uma ciência puramente objetiva para dar conta da experiência subjetiva. Ela surge como tentativa de compreender aquilo que não se deixa reduzir nem ao corpo biológico, nem ao cálculo técnico.
No entanto, ao buscar reconhecimento científico, a psicologia frequentemente se aproxima dos modelos explicativos das ciências naturais. O sofrimento passa a ser descrito em termos de sintomas, estruturas, funções e déficits. Embora esse movimento tenha produzido avanços importantes, ele também gerou um afastamento da experiência vivida do sujeito.
É nesse contexto que as abordagens fenomenológicas e existenciais ganham relevância. Elas surgem como uma resposta crítica à redução do humano a objeto de estudo, recolocando no centro da clínica a existência concreta, histórica e situada de cada pessoa.
A Daseinsanálise se insere nesse movimento ao afirmar que o sofrimento psíquico não é algo que o indivíduo possui, mas algo que se manifesta no modo como ele existe no mundo. A clínica deixa de perguntar apenas “o que está errado?” e passa a perguntar “como essa existência está sendo vivida?”.
Compreender por que a psicologia precisou nascer é fundamental para não absolutizar seus modelos nem negar sua importância. Significa reconhecer que ela é uma resposta histórica a um sofrimento histórico — e que, portanto, precisa permanecer aberta à revisão, ao questionamento e ao diálogo com outras formas de saber.
Talvez o futuro da clínica dependa justamente disso: lembrar que a psicologia nasceu para cuidar do humano e que, sempre que se distancia desse cuidado, precisa reaprender a escutar.