Quando o humano se tornou pergunta

Contemplation

Houve um tempo em que o humano simplesmente vivia. Habitava a natureza, os ciclos, o corpo e a comunidade sem se perguntar explicitamente sobre si mesmo. A vida se dava no ritmo das estações, dos rituais e das necessidades imediatas. Não havia ainda a separação entre viver e pensar a vida.

Em algum momento da história, porém, algo se deslocou. O humano começou a se perguntar. Quem sou? O que é isso que existe? Por que sofro? O que significa viver? Esse gesto aparentemente simples marcou uma ruptura profunda: o humano deixou de estar apenas imerso no mundo e passou a se colocar diante dele.

Quando o humano se tornou pergunta, nasceu o pensamento reflexivo. Com ele, surgiram a filosofia, a linguagem conceitual e, mais tarde, a ciência. O mundo deixou de ser apenas vivido e passou a ser interpretado, explicado, representado. Esse movimento abriu possibilidades extraordinárias de compreensão, mas também instaurou uma distância crescente entre o humano e sua experiência imediata.

A ontologia nasce justamente nesse ponto: quando o ser passa a ser interrogado. O que é o ser? O que significa existir? Essas perguntas atravessam a história da filosofia desde a Grécia antiga e moldam profundamente a forma como o Ocidente aprendeu a pensar o mundo e a si mesmo.

No entanto, à medida que o pensamento se torna mais abstrato, corre-se o risco de esquecer o solo da experiência concreta. O ser passa a ser pensado como ideia, substância ou conceito, enquanto a existência cotidiana — com seu sofrimento, sua ambiguidade e sua fragilidade — fica em segundo plano.

A clínica contemporânea herda essa tensão. Muitas vezes, ela opera a partir de conceitos altamente elaborados, mas distantes da experiência viva do sujeito. Recuperar o momento em que o humano se tornou pergunta não é um exercício erudito, mas um gesto clínico: lembrar que toda teoria nasce de uma tentativa de responder ao sofrimento e ao mistério de existir.

Talvez a tarefa da clínica hoje seja justamente essa: sustentar o pensamento sem perder o chão da experiência, e permitir que a pergunta pelo ser volte a nascer no encontro singular com cada existência.

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