Antes da psicologia, havia o humano

Muito antes de existir uma ciência dedicada à mente, já existia o humano em sua experiência mais elementar: nascer, sofrer, amar, temer, perder e buscar sentido. O sofrimento psíquico não surgiu com a psicologia; ele acompanha o humano desde que o humano se reconheceu como tal.

O corpo, o tempo e a relação com o outro antecedem qualquer teoria. A experiência de dor, de angústia e de desamparo não precisou de nome para existir. Ela se dava no cotidiano, nos vínculos, nos rituais, nas narrativas e nas formas simbólicas de habitar o mundo.

A psicologia nasce tardiamente na história, como tentativa de responder a algo que já estava em curso: o sofrimento humano em um mundo que se tornava cada vez mais abstrato, técnico e fragmentado. Antes disso, o cuidado se expressava em práticas comunitárias, religiosas, filosóficas e culturais, nas quais o sofrimento era compreendido como parte da existência, e não como falha individual.

Lembrar que houve humano antes da psicologia não é um gesto de negação da ciência, mas de humildade clínica. Significa recolocar o cuidado antes da técnica, a experiência antes do conceito, e o encontro antes da classificação.

Talvez o desafio contemporâneo da clínica seja justamente esse: não esquecer que, antes de qualquer saber especializado, há um humano tentando existir em meio às suas possibilidades e limites.

A caminho da Clareira….

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