Quando romper parece a única saída: Obsession, Geração Z e o colapso do futuro

O que acontece quando uma geração cercada de possibilidades começa a experimentar a vida como se algumas situações não tivessem saída?

Obsession pode parecer apenas um filme de terror sobre amor, obsessão e controle. Mas o final abre uma questão muito maior: o que acontece quando uma pessoa deixa de conseguir imaginar outras possibilidades para a própria vida?

Neste vídeo, eu falo sobre Geração Z, desesperança, cultura digital, frustração, ruptura e o colapso do futuro a partir de uma leitura psicológica e fenomenológica.

Por Christianne Sturzeneker

*Este artigo aborda desesperança, ideação suicida e suicídio a partir de uma perspectiva psicológica e fenomenológica.


Há uma cena em Obsession que permanece depois que o filme termina. Não porque seja a mais violenta. Nem porque seja a mais assustadora. Mas porque, de repente, o horror sobrenatural deixa de ser o verdadeiro problema.

O jovem Bear desejou que Nikki o amasse mais do que qualquer outra pessoa no mundo. O desejo se realizou. E justamente por ter se realizado, tornou-se monstruoso.

Há muitas maneiras de interpretar Obsession. Pode-se falar sobre consentimento, posse, dependência emocional, controle e sobre a transformação do amor em propriedade. Mas outra pergunta me ocorreu enquanto assistia ao filme: Por que, quando todas as alternativas parecem desaparecer, a ruptura passa a se apresentar como solução?

E essa pergunta ultrapassa o filme. Ela nos coloca diante de uma geração que cresceu em um mundo aparentemente abarrotado de possibilidades e que, paradoxalmente, também convive com índices preocupantes de desesperança, sofrimento psíquico e comportamento suicida. Talvez estejamos diante de uma questão ainda mais profunda: “O que acontece quando uma pessoa deixa de conseguir imaginar o depois?”

O horror começa quando não existe um “depois”

No desfecho de Obsession, Bear percebe que criou uma situação da qual aparentemente não consegue escapar. Nikki não simplesmente o ama. Ela foi aprisionada dentro daquele amor. O desejo retirou dela precisamente aquilo sem o qual nenhuma relação humana pode verdadeiramente existir: a liberdade de escolher, recusar, aproximar-se, afastar-se e até deixar de amar.

Bear desejava eliminar a insegurança. Eliminou a liberdade. Desejava eliminar a possibilidade da rejeição. Eliminou a possibilidade da relação. E, finalmente, confrontado com as consequências de seu próprio desejo e com a aparente impossibilidade de desfazê-lo, ele produz a ruptura definitiva. O ponto mais perturbador não está apenas na morte.

Está na estrutura que antecede essa decisão. Tudo parece ter se fechado. Não existe retorno. Não existe alternativa intermediária. Não existe um “talvez”. Existe apenas a sensação de que aquilo precisa acabar. É justamente esse detalhe que transforma o final em algo mais do que uma solução narrativa de terror.

Um morre. A outra fica. Um interrompe. A outra terá que elaborar.

São duas respostas radicalmente diferentes à existência depois da catástrofe. E foi nesse ponto que Obsession deixou de ser, para mim, apenas um filme de horror.

Talvez o oposto da esperança não seja a tristeza

Quando falamos em desesperança, frequentemente imaginamos alguém profundamente triste. Mas a desesperança pode ser compreendida de outra maneira. Ela é também uma crise de possibilidade.

A pessoa olha para a própria vida e já não consegue imaginar:

“Isso pode mudar.”

“Posso atravessar isso.”

“Existe alguma coisa depois daqui.”

“Ainda não sei o que fazer, mas talvez exista algo que eu ainda não esteja vendo.”

O futuro continua existindo cronologicamente. Amanhã continuará marcado no calendário. Mas, subjetivamente, o amanhã desapareceu. Isso produz uma diferença fundamental entre sofrimento e desesperança. Uma pessoa pode estar sofrendo intensamente e ainda acreditar que alguma transformação seja possível.

Na desesperança extrema, não é somente o presente que se torna insuportável. É o futuro que deixa de oferecer alternativas. E quando não conseguimos imaginar transformação, podemos começar a imaginar interrupção.

A geração das infinitas opções

É aqui que a Geração Z entra nesta discussão. Seria irresponsável afirmar que existe alguma característica psicológica universal chamada “mentalidade da Geração Z”. Milhões de pessoas não podem ser reduzidas a uma única estrutura psíquica. Mas existe um paradoxo contemporâneo que merece atenção.

Nunca tivemos tantas opções disponíveis. Centenas de pessoas podem ser vistas em minutos em aplicativos de relacionamento. Milhares de carreiras podem ser pesquisadas. Uma identidade pode ser apresentada, modificada e reapresentada publicamente.

Uma amizade pode ser interrompida com um bloqueio. Um conteúdo desagradável desaparece com o movimento de um dedo. Uma conversa pode ser abandonada. Uma pessoa pode ser silenciada. Uma conta pode ser apagada. Uma experiência pode ser pulada.

Vivemos dentro de uma arquitetura tecnológica construída em torno de uma operação recorrente: continuar ou sair.

Isso não significa que aplicativos produzam suicídio. Muito menos que bloquear alguém, terminar um relacionamento ou deixar um emprego sejam comportamentos patológicos. Muitas rupturas são necessárias, saudáveis e até vitais. O problema que merece investigação é outro.

O que acontece quando a lógica da interrupção começa a ocupar o lugar da transformação?

Permanecer deixou de ser uma possibilidade?

Há experiências humanas que não possuem botão para pular. O luto não pode ser deslizado para a esquerda. A rejeição não desaparece quando fechamos uma janela. Uma infância não pode ser deletada. O corpo não possui a função “desfazer”. Algumas perdas não podem ser bloqueadas. E nenhuma existência oferece garantia de reciprocidade.

Viver exige uma competência cada vez menos celebrada: permanecer durante algum tempo diante daquilo que ainda não tem solução.Isso não significa permanecer em um relacionamento abusivo. Não significa suportar violência. Não significa defender resignação, submissão ou passividade.

Permanecer, aqui, significa outra coisa. Significa tolerar o intervalo existente entre: “não posso continuar assim” e “ainda não sei como será diferente”.

Esse intervalo é psicologicamente difícil. Nele não existe solução instantânea. Existe elaboração. Existe espera. Existe ambivalência. Existe reconstrução. Existe ajuda.

Existe a possibilidade de descobrir uma saída que ainda não conseguíamos enxergar. Talvez uma das perguntas mais importantes sobre nosso tempo seja justamente esta: estamos ensinando os jovens a atravessar esse intervalo?

Quando “preciso que isso acabe” se aproxima de “preciso acabar”

Existe uma distinção clínica importante. Querer interromper uma dor não é necessariamente querer interromper a própria existência. Uma pessoa pode desejar desesperadamente que uma situação termine.

Que uma angústia pare.

Que uma dívida desapareça.

Que uma humilhação cesse.

Que uma relação deixe de doer.

Que determinado estado interno se encerre.

Em condições de intenso sofrimento psíquico, entretanto, essas duas coisas podem perigosamente se aproximar. “Eu preciso que isso termine” pode transformar-se em: “não existe maneira de isso terminar enquanto eu estiver aqui.” É nessa passagem que a desesperança se torna particularmente importante para compreendermos o risco suicida.

Não porque exista uma causa única para o suicídio. Não existe. Comportamentos suicidas são fenômenos complexos, relacionados a múltiplos fatores individuais, psicológicos, relacionais, sociais e ambientais. Mas a incapacidade de representar um futuro diferente possui enorme importância.

O problema deixa de ser apenas: “Minha vida está insuportável.” E passa a ser: “Minha vida será sempre assim.”

Uma frase descreve sofrimento.

A outra aprisiona o futuro.

A fantasia da ruptura salvadora

Talvez possamos chamar esse fenômeno de fantasia da ruptura salvadora. Não estou utilizando a expressão como categoria diagnóstica, mas como uma chave para pensar nosso tempo. É a crença de que eliminar o vínculo eliminará necessariamente o conflito.

Eliminar o espaço eliminará a angústia. Eliminar a experiência eliminará o sofrimento. É evidente que existem situações nas quais romper é precisamente o necessário. Sair de uma relação violenta pode salvar uma vida. Romper determinados vínculos pode ser um ato de saúde.

Abandonar um ambiente destrutivo pode representar reconstrução. O problema não está na ruptura. Está na desaparição das demais possibilidades.

Quando existem somente duas alternativas — continuar exatamente assim ou destruir tudo — já estamos diante de um empobrecimento do possível. E talvez Obsession seja exatamente uma história sobre isso. Bear nunca consegue aceitar verdadeiramente a terceira possibilidade. Nikki pode não amá-lo. Ele poderia sobreviver a isso. Poderia sofrer. Poderia perder. Poderia seguir.

Poderia tornar-se outro depois daquela rejeição. Mas ele tenta eliminar a contingência. Quer uma solução absoluta. E soluções absolutas são perigosas justamente porque a existência humana nunca é absoluta.

O algoritmo também nos ensina alguma coisa sobre frustração

Há ainda outro elemento que não pode ser ignorado. A Geração Z é a primeira geração a ter atravessado infância e adolescência dentro de ecossistemas digitais de grande escala. Isso não autoriza o diagnóstico fácil de que “as redes sociais estão destruindo os jovens”. A evidência é mais complexa. Talvez devamos perguntar não apenas quanto tempo um jovem passa diante de uma tela.

Talvez devamos perguntar também: que estrutura de experiência essa tela está ensinando?O algoritmo aprende rapidamente aquilo que queremos. Se algo não nos interessa, desaparece.

Se uma música não agrada em poucos segundos, outra começa. Se uma imagem incomoda, rolamos. Se alguém produz desconforto, silenciamos. A tecnologia reduz extraordinariamente o tempo entre desejo e resposta. A existência não. Talvez exista aí um conflito silencioso. A cultura digital oferece progressivamente menos treinamento para a espera exatamente no momento em que a vida continua exigindo espera.

Mil portas na tela

Talvez seja esse um dos grandes paradoxos contemporâneos. Nunca estivemos cercados por tantas opções. Mas possibilidade objetiva não é a mesma coisa que possibilidade subjetivamente experimentada. É possível haver dez caminhos diante de uma pessoa e, ainda assim, ela sentir que não existe nenhum. É possível existir saída e ela não aparecer como saída. É possível existir futuro e ele não ser sentido como futuro.

Mil portas na tela.

Nenhuma porta dentro de nós.

Essa talvez seja uma das imagens mais fortes para compreender a desesperança contemporânea. Não se trata simplesmente de ausência de opções. Trata-se de ausência de acesso subjetivo às opções.

Heidegger e o desaparecimento do possível

A filosofia pode nos ajudar a enxergar essa questão de outra maneira. Para Martin Heidegger, a existência humana não é simplesmente aquilo que já somos. O ser humano existe projetando-se em possibilidades. Somos também aquilo que ainda podemos ser. Isso significa que o futuro não é apenas uma data que chegará.

Ele participa da maneira como habitamos o presente. Enquanto consigo dizer: “ainda posso”, há abertura.

Quando todas as possibilidades parecem fechar-se, o mundo também se estreita. Por isso podemos pensar a desesperança fenomenologicamente como uma espécie de colapso do poder-ser.

Não significa que possibilidades tenham objetivamente deixado de existir. Significa que, para aquela pessoa, elas deixaram de aparecer como possibilidades. Há uma diferença imensa. De fora, alguém pode enxergar dez caminhos. De dentro da experiência desesperançada, nenhum deles aparece. Talvez por isso frases como “você tem a vida inteira pela frente” frequentemente tenham tão pouco efeito sobre alguém profundamente desesperançado. Quem diz a frase está olhando para um futuro objetivo.

Quem sofre já não consegue habitá-lo.

Nikki sobrevive

E então voltamos ao filme. Há algo brutalmente importante no fato de Nikki permanecer viva. Não há final feliz. Ela não recupera simplesmente a vida anterior. Há trauma. Há consequências. Há uma história que não poderá ser apagada. Mas existe um depois.

E talvez essa seja precisamente a dimensão mais perturbadora — e também mais humana — do final. Sobreviver não significa retornar ao ponto em que estávamos antes.

Às vezes significa continuar carregando uma experiência que modificou profundamente quem somos. A cultura da solução pode vender a ideia de que superar alguma coisa significa apagá-la. A experiência humana nos ensina outra coisa. Elaborar é diferente de apagar.

Reconstruir é diferente de voltar. Continuar é diferente de permanecer igual.

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada

Quando alguém manifesta desejo de morrer, naturalmente perguntamos: “Por que você quer morrer?” É uma pergunta compreensível. Mas talvez exista outra que precise acompanhá-la: “O que aconteceu para que todas as outras possibilidades deixassem de aparecer?”

Porque talvez, em determinados momentos, a pessoa não esteja conseguindo escolher entre viver e morrer da maneira como imaginamos. Talvez esteja escolhendo entre: “continuar para sempre desta maneira” e “fazer isto parar”.

Se for assim, uma das tarefas fundamentais de quem está ao seu lado — família, amigos, sociedade e profissionais de saúde mental — é ajudar a reconstruir aquilo que a desesperança destruiu: a existência de uma terceira possibilidade.

Não precisamos saber imediatamente qual será. Primeiro, precisamos recuperar o talvez. Talvez isso mude. Talvez exista ajuda. Talvez haja uma possibilidade ainda invisível. Talvez eu não precise decidir toda a minha vida a partir daquilo que estou sentindo hoje.

Talvez exista um depois.

O verdadeiro horror

Obsession começa com um jovem incapaz de suportar que o futuro permaneça aberto. Ele quer certeza. Quer controle. Quer uma resposta definitiva. Obtém exatamente aquilo que desejou.E o resultado é horror.

Talvez haja alguma coisa profundamente contemporânea nessa história. Uma geração cresceu com acesso a mais alternativas do que qualquer geração anterior. Mas possibilidades objetivamente disponíveis não significam necessariamente possibilidades subjetivamente experimentadas. Podemos ter mil portas na tela e nenhuma porta dentro de nós.

É por isso que, diante da desesperança entre os jovens, talvez a pergunta mais urgente não seja apenas por que tantos estão sofrendo. Precisamos perguntar também: quem está ensinando essa geração que uma vida pode mudar sem precisar ser destruída primeiro?

Porque entre permanecer exatamente onde estamos e romper definitivamente com tudo existe um território enorme. É nesse território que vivem a elaboração, o encontro, a ajuda, a mudança, o tempo e aquilo que ainda não conhecemos.

É nele que o futuro volta a existir.

E, algumas vezes, recuperar o futuro começa com uma única possibilidade: não acabar hoje aquilo que ainda pode se transformar amanhã.





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