O Substituto: Por que Insistimos em Oferecer outra Coisa no Lugar?

Esta semana eu estava pensando em uma cena que provavelmente todos nós já vimos alguma vez.

Uma criança começa a chorar.

O adulto, quase imediatamente, procura alguma coisa para resolver aquilo.

Um brinquedo.

Um doce.

Um desenho na televisão.

Um celular.

Uma promessa.

Uma distração.

Quase nunca a primeira pergunta é: "O que aconteceu?"

E menos frequente ainda é outra pergunta: "Do que você realmente precisa?"

Essa reação parece tão natural que raramente percebemos o que está acontecendo.

Diante da dor, da frustração ou do vazio, nossa tendência não é permanecer. Nossa tendência é substituir.

Foi justamente pensando nisso que escrevi a pequena fábula "O Substituto".

Nela, um filhote de esquilo recebe tudo aquilo que qualquer pessoa consideraria necessário. Alguém lhe oferece alimento. Outro constrói um abrigo. Uma terceira personagem o aquece com uma manta.

Pelo contrário.

Cada personagem faz exatamente aquilo que sabe fazer.

A questão é outra.

Apesar de todos os cuidados, o filhote continua olhando para o mesmo caminho.

É como se dissesse silenciosamente: "Não era isso que eu esperava."

Essa cena me fez pensar em quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa na vida.

Quando um amigo sofre, oferecemos conselhos.

Quando um filho se entristece, oferecemos presentes.

Quando um companheiro se afasta, oferecemos soluções.

Quando nós mesmos nos sentimos vazios, oferecemos trabalho, comida, compras ou distrações.

Talvez porque seja mais fácil oferecer alguma coisa do que permanecer diante de uma dor que não sabemos resolver.

Na clínica, essa diferença aparece com frequência.

Nem sempre o sofrimento nasce daquilo que faltou materialmente.

Às vezes, nasce da experiência de não ter encontrado alguém emocionalmente disponível naquele momento.

Isso não significa procurar culpados.

Pais fazem escolhas difíceis.

Mães vivem exaustas.

Famílias enfrentam limitações reais.

A vida nem sempre permite oferecer tudo aquilo que gostaríamos.

Mas existe uma pergunta que vale a pena guardar: O que estamos tentando substituir?

Porque nem toda compensação resolve a ausência que lhe deu origem.

Algumas pessoas comem quando sentem solidão.

Outras trabalham sem parar.

Algumas compram.

Outras controlam.

Há quem procure reconhecimento o tempo inteiro.

E há quem passe a vida tentando provar que merece ser escolhido.

Os comportamentos mudam.

A lógica permanece.

Substituímos aquilo que não conseguimos tocar.

Talvez seja justamente por isso que Epicuro, na fábula, não leva nada.

Ele percebe que o problema do pequeno esquilo não é a falta de uma noz.

Nem de um telhado.

Nem de uma manta.

O que faltava não cabia nas mãos.

Cabia na presença.

E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis do nosso tempo.

Vivemos cercados de recursos para substituir quase tudo.

Mas continuamos aprendendo, muito lentamente, que existem experiências humanas que simplesmente não aceitam substitutos.

Uma pergunta para levar consigo

Na próxima vez que alguém próximo a você estiver sofrendo, antes de procurar imediatamente uma solução, experimente fazer uma pausa.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

"O que posso oferecer?"

Mas:

"Será que, antes de qualquer coisa, essa pessoa só precisa que alguém permaneça ao lado dela?"


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