QUANDO OS PAIS NÃO QUEREM SER PAIS
Entre a fuga do papel e a crise da formação humana contemporânea
Contexto Familiar Contemporâneo
A crise contemporânea da educação não se limita à ausência de métodos, mas revela algo mais profundo: a fragilidade das funções parentais.
Entre o excesso de permissividade e o excesso de controle - já problematizados por James Dobsonem - erge um fenômeno silencioso e inquietante: a recusa, explícita ou velada, de sustentar o papel de educar.
Nunca se falou tanto sobre educação, e ainda assim, nunca se viu uma geração tão marcada por ansiedade, desorientação e dificuldade de sustentar a própria existência diante do real.
Isso nos obriga a deslocar a pergunta. O problema não está apenas em como educar, mas em quem está disposto a sustentar o lugar de educador.
Já na década de 1980, James Dobson apontava dois extremos que produzem efeitos igualmente danosos: o excesso de reforço positivo e o excesso de punição. Ambos desorganizam. Ambos retiram da criança a possibilidade de construir uma relação estável com o mundo.
No entanto, o cenário contemporâneo acrescenta um terceiro elemento ainda mais delicado: a desresponsabilização afetiva e existencial dos adultos.
Hoje, não se trata apenas de educar mal. Em muitos casos, trata-se de não querer educar, de evitar o desgaste, o conflito, a frustração que fazem parte inevitável do processo de formação humana.
Educar, a partir de uma leitura fenomenológica, não é moldar comportamento. Não é produzir adequação social imediata. Educar é introduzir um ser no mundo, oferecendo-lhe direção, limite e sentido. É participar da abertura do seu ser-no-mundo, como nos permite pensar Martin Heidegger.
Quando essa introdução falha, o que se chama de liberdade torna-se, na verdade, uma forma sofisticada de desamparo. A criança não encontra contorno, não encontra medida, não encontra o outro como referência - e, sem isso, não há mundo habitável.
Nesse sentido, a tradição bíblica, muitas vezes reduzida a leituras simplistas ou fundamentalistas, oferece uma estrutura surpreendentemente sofisticada de formação humana.
Ela se organiza, em sua base, em três eixos: a lei, que estabelece limites e organiza o caos; a sabedoria, que permite discernimento e leitura de contexto; e o amor, que sustenta o vínculo sem transformar o limite em violência. Essa tríade impede tanto o autoritarismo quanto o abandono.
Não se trata de rigidez, mas de direção. Não se trata de controle, mas de responsabilidade.
Um dos fenômenos mais silenciosos - e ao mesmo tempo mais devastadores - da contemporaneidade é a anulação da função parental. Não é a ausência física de pais que mais desorganiza uma criança, mas a ausência simbólica de autoridade.
Quando um dos pais é constantemente desautorizado, quando decisões são invalidadas na frente da criança, quando há competição entre cuidadores ou quando a criança passa a ocupar o lugar de quem decide, algo fundamental se rompe.
A criança perde o eixo. Ela não sabe em quem confiar, não sabe o que é válido, não sabe o que organiza o mundo. E, sem essa referência, ela não ganha liberdade - ela ganha insegurança.
Quando os adultos não sustentam o lugar, a criança tenta compensar. Ela pode se tornar excessivamente adaptada, assumindo responsabilidades que não são suas, ou profundamente desorganizada, buscando no comportamento aquilo que não encontra na estrutura.
Em ambos os casos, há um movimento silencioso e profundamente humano: a tentativa de salvar o sistema ao qual pertence, mesmo que isso custe a si mesma. A criança não desiste do vínculo. Ela se rearranja dentro dele, ainda que isso implique sofrimento.
Outro aspecto relevante é o deslocamento das funções parentais. Avós, cuidadores, escolas e outros adultos podem - e muitas vezes devem - participar do cuidado. O problema não está na rede de apoio, mas na substituição desorganizada da autoridade.
Quando múltiplas vozes ocupam o lugar de decisão sem coerência, a criança se vê diante de um campo fragmentado. Ela não sabe a quem responder, a quem obedecer, a quem se referir. Isso não amplia sua liberdade. Isso a fragmenta internamente.
Nesse contexto, o desaparecimento do limite se torna um dos traços mais marcantes da educação contemporânea. Há uma dificuldade crescente de dizer “não”. No entanto, o “não” não é rejeição. O “não” é a primeira forma de realidade que a criança encontra. Ele introduz contorno, diferença, alteridade. Sem o “não”, não há experiência do outro, não há espera, não há construção de desejo. O limite não reprime - ele estrutura. Ele organiza a experiência do mundo.
A rotina, muitas vezes vista como algo secundário ou rígido, é na verdade o primeiro mundo que a criança habita. Ela oferece previsibilidade, continuidade, segurança. Através da repetição, a criança aprende que o mundo tem forma, que o tempo tem ritmo, que a existência não é um fluxo caótico. Sem rotina, a experiência do tempo se fragmenta, e com ela, a própria experiência de si.
Um dos equívocos mais comuns da contemporaneidade é colocar a criança no centro absoluto da família. Embora isso possa parecer cuidado, trata-se, na verdade, de uma sobrecarga.
A criança não precisa de poder. Ela precisa de estrutura. Quando se torna o eixo, ela perde o lugar de criança e assume uma posição para a qual não está preparada. Isso gera ansiedade, instabilidade e uma dificuldade profunda de lidar com o outro e com a realidade.
Educar também implica um movimento que talvez seja o mais difícil de todos: o deixar ir. Não de forma abrupta, mas progressiva. Permitir frustração, não antecipar todas as soluções, sustentar o desconforto da criança sem resgatá-la imediatamente.
Amar um filho não é protegê-lo do mundo, mas prepará-lo para ele. Sem esse movimento, a criança não se desenvolve plenamente. Ou permanece dependente, ou rompe de forma abrupta e muitas vezes violenta mais tarde.
Famílias funcionais não são famílias perfeitas. São famílias que conseguem sustentar minimamente seus papéis, que mantêm alguma coerência, que não colocam a criança no centro dos conflitos adultos, e que conseguem reconhecer seus próprios erros sem que isso leve ao colapso da estrutura.
A saúde não está na ausência de falhas, mas na capacidade de sustentação.
A crise da educação, portanto, não é apenas pedagógica. É existencial. Entre o controle excessivo e o abandono disfarçado de liberdade, o que se perdeu foi a coragem de sustentar o lugar de educador.
Educar exige presença que não sufoca, limite que não violenta e, sobretudo, a disposição de permanecer - mesmo quando é difícil, mesmo quando cansa, mesmo quando confronta.
Porque, no fim, filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes o suficiente para sustentar o mundo.