Psicopatia social não é exceção

Este livro parte de uma tese:

“Há formas de violência que não são apenas individuais — são estruturais”.

Chamo isso de psicopatia social.

Não no sentido clínico tradicional, mas como um modo de funcionamento em que a violência se normaliza, se repete e deixa de ser percebida como violência.

Essa compreensão não surgiu de forma teórica.


Ela foi sendo construída a partir da experiência.

Durante muito tempo, vivi situações que, isoladamente, poderiam ser interpretadas como episódios pontuais.
Mas, ao longo dos anos, algo começou a se tornar evidente: a repetição.

Violência dentro de casa.
Violência na família.
Violência em contextos religiosos.
Violência no trabalho.

Em diferentes ambientes, com diferentes pessoas, o mesmo padrão se reorganizava.

O lugar da mulher, de forma recorrente, aparecia marcado por subjugação, opressão, controle e abuso.

Isso não se apresentava sempre de forma explícita.
Muitas vezes, vinha disfarçado de norma, de cultura, de expectativa.

E é justamente aí que o problema se sustenta.

Quando a violência deixa de ser reconhecida como violência, ela passa a organizar a realidade.

Por muito tempo, a tendência é acreditar que aquilo que se vive define quem se é.
Que os limites impostos por essas experiências delimitam também o que é possível se tornar.

Mas essa não é a única leitura possível.

“A Sombra do Patriarcado” não é uma autobiografia.
E também não é um tratado feminista no sentido clássico.

É uma tentativa de dar forma a esse reconhecimento:
de que existem estruturas que produzem e sustentam sofrimento — e que podem ser compreendidas.

E, ao serem compreendidas, deixam de operar da mesma maneira.

Este livro começa na violência.
Mas não termina nela.

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A Segunda Travessia